Poesia da casa – Chão de terra

 

Chão de terra batida de minha infância

Cheiro de chuva molhando o capim

ao redor cantos de pássaros entre árvores

e na varanda o doce colo de minha avó

 

Chão de terra batida de minha alegria

Da liberdade que deixou tanta saudade

ao longe a cerca que se destinava

a me proteger de todos os perigos

 

Perigo era o poço d’água fundo e mal tampado

Perigo era a vaca brava que perseguia com seus chifres

Perigo era a máquina de triturar ração

– eram esses os perigos de minha infância

 

Chão de terra batida de minha lembrança

O café – tão lindo – secando no terreiro

o doce de leite sobre o fogão de lenha…

Chão de terra batida que nunca mais pisei!

 

 

Solidão compartilhada

Ainsi me parlait mon père: “Force-les de bâtir ensemble un tour et tu le changeras en frères. Mais se tu veux qu’ils se haïssent, jette-leur du grain”.

Estava ouvindo uma música do Luiz Carlos Paraná. Começa assim: “Não foi surpresa para mim o que se deu, foi tão natural saber que nosso amor morreu….” e no fim: “quando chegaste eu já sabia ter alguém, quando partiste eu já sabia viver só.”

Fiquei pensando em quanta solidão conjunta existe pela vida afora.

Quantos casais vivem juntos e tão separados, que acredito que se tratem por bem e benhê simplesmente por não mais se recordarem do nome do parceiro…

Quantos pais não sabem sequer o dia do aniversário dos filhos…

Quantas famílias vivem juntas em compartilhada solidão…

Disse Saint-Exupéry* que Amar não é olhar um para o outro e sim olharem juntos na mesma direção, embora isso mais pareça propaganda de cinema, onde todos olham na mesma direção e nem por isso se amam!

Trazendo para nossos dias, muitos casais mudaram essa verdade e pensam que amar é olharem juntos na mesma televisão (isso quando cada membro da família não tem seu aparelho de televisão em seu próprio quarto, vivendo ali confinado).

Já não há partilha de vida, mas distribuição de egoísmo e egocentrismo.

E de tanto olharem para a televisão, se esqueceram como é conversar.

De não conversar esqueceram como é conviver.

De não conviver esqueceram como é amar.

E assim vivem muitos casais: em festiva solidão a dois.

(*como é conhecido Antoine-Jean-Baptiste-Marie-Roger Foscolombe de Saint-Exupéry, filho de condes de Lyon,França.)

Mar, sempre o Mar

Não é sempre que sou tão assídua aqui no blog.

Porém tenho minhas razões para sumir de vez em quando. Eu sou nômade por natureza, tenho casa principal e filiais e por isso às vezes me ausento. E quando estou fora, dificilmente escrevo: não gosto do notebook, a telinha minúscula, acoplada ao teclado, forçando verdadeiras acrobacias para digitar. 

Que palavra linda: viagem. Viajar. Ir. Deixar tudo para trás, ainda que por poucos dias e ir. É tão simples. 

Eu realmente gosto de viajar, fui muito cedo contaminada pelo vírus do turismo e isso não tem cura. Só de pensar que vou já estou feliz, seja para onde for. Estou sempre animada para ir – ainda que seja até Presidente Prudente, para ver minha família prudentina. Mas, de qualquer forma, é um ir. 

Gosto de viajar perto, de viajar longe, de viajar de automóvel, de viajar de avião, de viajar de navio. 

Sou turista profissional – já saio de casa sabendo que as coisas podem não sair como o esperado, que quem quer conforto e hora certa deve ficar em casa. Então nada me aborrece nem estraga o prazer de ir. 

Se posso viajar para uma praia, aí a animação é contagiosa. Ninguém resiste e todo mundo quer ir também. Amo praia. 

Muitas vezes me vejo a pensar o porquê do fascínio exercido pelo mar, e não exclusivamente sobre mim. 

Cada um gosta do mar de um jeito e por uma razão, acho que depende da origem, da idade… 

As crianças adoram entrar na água, não importa se gélida. 

Como não sou mais criança – faz tempo – mudei minha relação com o mar. Se muito gelado já me afasto. Sou movida a água do mar e tenho bateria solar. Então a praia é, real e literalmente, minha praia. 

Gosto de ficar na praia horas a fio, o dia inteiro, em uma sombra, vendo, ouvindo e respirando o mar. Se a água é quente, aí está completo. Fico horas dentro d´água – horas mesmo, não é força de expressão. 

E outras pessoas gostam de ficar, de longe, apenas contemplando o mar. 

Fico a lembrar os mares” que já vi, Maceió, por exemplo, onde o mar tem uma cor inigualável. E quente. E manso. Um dia ainda vou morar lá, no edifício Beethoven, e vender bijuterias na praia. Mas isso só depois da aposentadoria, é claro, porque acho que vender bijuteria não me sustentaria lá. 

Os mares do nordeste do Brasil são lindos. E quentes. 

São tantos mares e tão lindos… 

E viajar de navio, então. É a glória. Literalmente. 

Dias e dias em pleno mar. Para onde se olha se vê mar. Céu e mar. 

Dormir com o doce balanço do navio. Quando embarcada tenho a impressão que minha avó me está ninando, todas as noites. 

Gosto de mar e de barcos. Um bote. Um caiaque já me basta. 

E vou confessar aqui: meu sonho dourado é viver embarcada, e todos os dias, ir. Porque o mar não pára e se estamos embarcados estamos, sempre, indo.

Há muitos anos mantenho minha prainha num canto da sala, com conchas diversas, desde conchinhas até enormes caramujos…

E o outro lado do mar? A emoção de Cabo das Rocas, “aqui, onde a terra acaba e começa o mar”, nas palavras de Camões… 

Entrei no mar do lado de lá em Nazaré. Não aguentei a vontade e…fui! Gelado! Voltei para a calçada, calcei as botas e continuei meu passeio. Mas estive dentro do mar, do outro lado do Oceano Atlântico.

O mar nas Bahamas, quente, límpido. No Caribe, na Cote d’Azur, na Madeira, o Mediterrâneo, o Egeu, o Tirreno, o Adriático… são tantos os mares e acredito que, no fundo, que o mar é um só. E a terra, de atrevida, o cobriu em algumas partes, e parece dividi-lo.

E deixo aqui trecho de uma mensagem linda, anônima, que recebi há muito tempo: Você sabe por que o mar é tão grande, tão poderoso? Porque teve a humildade de colocar-se abaixo da terra e dos rios. Porque se estivesse acima, não receberia todas as águas que correm e sim escoaria ele mesmo sobre as terras e se esvaziaria.

 

Sonho meu

1.- Um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal

2.- Um robô deve obedecer as ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei.

3.- Um robô deve proteger a própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira e a Segunda Leis.

Chego da praia e tenho a surpresa de descobrir que estou sem computador. Internauta viciada, terei que me virar com o notebook, com o qual não combino muito, não me dá o conforto nem a visibilidade que o computador de mesa proporciona. Em compensação, em razão do roteador, com ele acesso a Internet de qualquer cômodo do apartamento.

Sento-me para a escrever e a panela a vapor apita, avisando que a salada está cozida. Acabei de tirar louça da máquina de lavar, e ainda tenho que colocar as roupas na outra máquina para lavar.

Começo a prestar atenção em mim mesma: o que seria de mim sem a eletricidade?

Na falta da criação de um robô Robbie, cerquei-me de máquinas. Não reclamam, não contam tragédias nem desgraças, ficam quietas em seus lugares enquanto eu penso, medito ou leio. Funcionam na hora em que EU quero e não têm problemas em trabalhar à noite ou qualquer outro horário.

Quando eu tinha por volta de 8 ou 9 anos ganhei o livro de Isaac Asimov (ou, em russo, АйзекАзимов), um clássico da ficção: Eu, Robô.

 

 

Apaixonei-me imediatamente pelo mundo robótico e passei a sonhar (sonho que não se perdeu com a maturidade) em ter meu próprio robô. As leis da robótica, que estão no alto da página, dariam a tranquilidade de ter minha própria máquina.

Não me importaria de ter também um Herbie ou um Cutie, mas não gostaria de me deparar com um Nestor ou um Dave. Algum dia haverá uma US Robôs, tenho certeza, com psicólogos de robôs e tudo o mais. Segundo Asimov seria lá pelo ano 2030. Espero que seja antes para  poder aproveitar.

Há alguns anos atrás apareceu uma propaganda da TV (não me lembro qual o produto anunciado, não sou de prestar muita atenção no que acontece na telinha), mas me chamou a atenção uma robô de aventalzinho e rodinhas no lugar dos pés que punha a comida na mesa e a criança da casa elogiava. A robô ficava emocionada e furtivamente enxugava uma lágrima no canto do olho. Aquilo me deixava fascinada – era aquele o robô que eu tanto queria – e ainda quero.

E o filme Inteligência Artificial – enxugue a primeira lágrima quem conseguiu não se emocionar com aquele robozinho sensacional. E puseram um garotinho espetacular para fazer o robô. Até o gigolô encanta neste filme.

O Homem Bicentenário – a eterna luta do robô sem alma que quer se humanizar…

Tive um robozinho de limpar o fundo da piscina, ele era azul bem forte, se destacava dentro da água. Um dia minha cunhada notou o bichinho lá num cantinho no fundo e teve um chilique, pois enxergou o próprio filhinho, de mais ou menos três anos, que estava com um maiozinho daquela cor lá pelo quintal de minha casa. Até se convencer que NÃO ERA o garoto foi um custo. Depois disso aposentei meu limpador de fundo – seu nome era Barracuda – e voltei ao velho e conhecido aspirador com mangueira.

Pela invisível eletricidade consigo fazer diversas coisas ao mesmo tempo, o que faz esse tempo render, e ainda escutando música. Quando a eletricidade é cortada eu fico prostrada, sentada num canto, nada sei fazer sem ela, a Santa Eletricidade que me dá vida.

Enquanto minha Robbie não chega, vou me virando com minhas maquininhas, e não digam que preciso poupar energia, pensar no meio ambiente, que desafio todos vocês a superarem minha marca: só no quintal e no jardim de minha casa no interior plantei MAIS DE TRINTA ÁRVORES. Já compensei todos os banhos que tomei, toda a gasolina que queimei, toda a eletricidade que usei e todo o oxigênio que respirei.

(Guarujá, 29.03.2009)

Capitão Bellini

Escrevi esse texto na manhã do dia 20/03/2014. Algumas horas depois recebi a triste notícia de seu falecimento.  

“O Hospital 9 de Julho confirma que o paciente Hideraldo Luiz Bellini está internado na instituição e esclarece que a família solicita a compreensão de todos, pois não autoriza a emissão de boletim médico.
Atenciosamente,
Assessoria de Comunicação do Hospital 9 de Julho” – 20.03.2014

 

Ao ser apresentada, certo dia, ao irmão de uma querida amiga, fiquei intrigada em ver que já o conhecia, mas realmente não consegui me lembrar onde o vira ou conhecera antes.

Passado algum tempo, estava na casa dela, quando chegou um tio. Não precisei de apresentações, de pronto reconheci o grande Bellini. O capitão. O campeão.

Aí liguei os pontos, e vi que não conhecia o sobrinho, mas que este, além do bom futebol,  herdara o sorriso e os lindos olhos do tio, o que o tornava familiar para mim.

Leio hoje que Bellini está internado, seu estado é muito grave.

Sabia que sofre do mal de Alzheimer, como também sei que já passou dos 80 anos, o que o torna especialmente vulnerável.

É uma lenda dos grandes esportistas do país que se vai aos poucos.

Como aves de rapina os jornalistas esperam a hora do desfecho para mil reportagens, para alavancar as vendas de seus jornais, com toda a matéria que lhe negaram em vida.

Antes de sua memória se apagar passou décadas ao lado da família na linda Itapira. Disse-me que ninguém se lembrava mais dele.

Mas eu lhe respondi que eu não o esquecera.

Quando fazia, ainda na infância, meu álbum de figurinhas das copas ficava fascinada com a cor de seus olhos. Por isso Bellini tanto marcou minha lembrança.

Divertiu-se quando lhe contei o quanto o tietara.

Contou-me histórias que não sabia, dele, da seleção, das conquistas…

Senti o orgulho de me poder sentir sua amiga.

Só posso agradecer a Deus e à vida de ter tido a oportunidade de conhecê-lo, de ver seus olhos maravilhosos e seu lindo sorriso, de apertar sua mão e beijar sua face.

Por isso aqui deixo meu recado – fé e força, Capitão, você não está sozinho – enquanto seu coração de atleta ainda bate.

Bellini. Meu capitão. Meu campeão! 

Notas a respeito de nada

Escrever é fácil? Claro, se você é alfabetizado não existe dificuldade…

Não é bem assim. Se você tem algum pendor, boas idéias, é só começar a escrever. Você escreve hoje, escreve amanhã, no outro dia dá uma desculpa tipo falta de tempo, empurra dois dias com a barriga, fim de semana não foi feito para isso…

 De repente sua carreira de escritor, que nem havia começado de verdade, já terminou por ali mesmo. 

E olhe que nem era um livro, mas sim eram notas, crônicas, réplicas de diálogos… mas não tem jeito. 

Você roda o pensamento, roda o pensamento, mas não sai nada da cabeça. Esvaziou. Tenta pensar numa crônica e só consegue lembrar de uma conta que não pagou. Começa uma poesia e a cabeça insiste em ficar repetindo um jingle que grudou no cérebro, tipo casas bahia. 

Deixa tudo para amanhã, quem sabe. 

Aí que tudo piora, até já esqueceu a propósito de que era aquele começado… agora que não mesmo para continuar. Desiste. 

Mas, você não é de deixar pra lá. Daí uns dias tenta de novo.

Não consegue nada.

E fica imaginando de onde os cronistas profissionais tiram tantas crônicas, os romancistas tiram tantos romances, os poetas tiram tanta poesia.

Olha em volta, acha que seu mundo é muito cinzento para servir de inspiração. Resolve abrir um vinho, sentar na frente da TV e assistir filme.

Escrever é para os outros. Muito difícil.