Não, não se nasce mulher

                                                

 

 Não, não se nasce mulher. Verdade. Nasce-se integrante – ou pertencente – ao sexo feminino. Mas só isso não basta para ser mulher. É apenas o começo.

                                               Porque apenas um corpo de mulher não faz de um ser uma mulher. Para se tornar mulher, aquele ser, que nasceu com as características femininas, vai percorrer sua estrada de vida e assim se tornar uma mulher.

                                               Desde muito cedo ela saberá dosar suas lágrimas.

                                               Uma mulher, por natureza, é poderosa. Mas uma mulher que chora se torna invencível.

                                               No entanto, uma mulher chorona e lacrimejante é insuportável. Então, desde muito cedo, aquele ser aprenderá a hora de chorar, a hora de sorrir. A hora de ser séria, e a hora de fazer rir. A hora de pedir desculpas e a hora de desculpar.

                                               Aprenderá a ser forte. Muito forte. Porque é preciso muita força para pertencer ao sexo frágil. A fragilidade da mulher é parte essencial de sua força.

                                               Enfrentará lobos e leões. E se apaixonará por ambos – lobos e leões. E terá de saber entrar e sair inteira de uma relação. Se se deixar destroçar em um relacionamento, por uma paixão, jamais se tornará mulher.

                                               E amará sempre, louca e apaixonadamente. Amará a si mesma em primeiro lugar. Amará seus filhos. Seu companheiro. Seu trabalho, sua profissão, seus hobbies e até mesmo amará fazer tudo o que detesta fazer, mas faz porque quer ser mulher. Mulheres enfrentam a dupla jornada, exercem sua profissão e ainda cuidam da casa, marido e filhos, cozinham, arrumam, provêem, fazem companhia, dão carinho, consertam a torneira, vão ao supermercado, limpam a geladeira, levam o carro à oficina, socorrem os familiares, os pais, os vizinhos, os amigos. Sempre com um sorriso no rosto, de unhas feitas e saltos altos.

                                               E, de quebra, fazem sobrar um tempinho para a ginástica, a manicure, a massagem, o tratamento de beleza, e um cafezinho com a amiga que está solitária.

                                               Porque toda mulher que quer ser chamada de mulher, tem uma amiga para ir tomar um café. É a hora do recreio da vida da mulher.

                                               E mulher precisa de um dia de 36 horas, no mínimo, se quiser dormir umas 4 ou 5 horas. Mas não existe isso. Então ela se vira em 18 ou 19 horas/dia para conseguir o indispensável sono da beleza.

                                               E, além de espalhar felicidade, aconchego e ternura, para ser mulher é preciso ter alegria.

                                               Alegria é o ingrediente que acompanha esse ser que quer se tornar mulher. Alegria é o ingrediente que se põe em tudo – até mesmo nos momentos de tristeza – para que se possa permanecer de pé diante de todas as dificuldades. Alegria é conseguir ver em tudo o pouco de divino que há na humanidade, ter a certeza que tudo se resolverá, saber que não precisa se preocupar com cada detalhe, que a vida vem e soluciona muita coisa por si mesma. Alegria é dar o melhor de si em tudo o que faz, com leveza e satisfação, mesmo sabendo que nem todos agirão assim. E saber reconhecer quando o outro também tem alegria no viver.

                                               Ainda, para ser mulher, é preciso saber sofrer.

                                               Sofrer com dignidade. Saber que na vida há tristeza, separação, sofrimento, derrota. E que tudo isso deve ser enfrentado com a mesma serenidade e a mesma  alegria com que enfrentou as coisas boas que a vida trouxe.

                                               Para se tornar mulher, é preciso, desde muito cedo, aprender a levantar. Porque o máximo que a maldade, a inveja, a pequenez do outro pode fazer é passar uma rasteira para derrubar. Ninguém pode impedir o outro de ser assim. Mas, se souber se levantar, não haverá problema nenhum em cair.

                                               A cada queda, levantar-se com a lição que não se pode confiar nem esperar muito de ninguém. Contar consigo mesma. E seguir em frente.

                                               Torna-se mulher o ser do sexo feminino que aceita sua condição de estar no mundo para espalhar ternura. De ser mãe mesmo não tendo filhos. De cuidar e amar incondicionalmente aqueles outros seres que a vida lhe confiar.

                                               Só quem tem a centelha da vida dentro de si, quem pode dar a vida a outro ser, pode ser mulher e entender o que é ser mulher.

                                               E, depois de entender o que é ser mulher, o ser que nasceu feminino, se torna mulher. Depois de sorrir, amar, sofrer, cair, levantar, acolher, repartir e repartir-se, será mulher.

                                               Por isso, além de nascer do sexo feminino, com suas características físicas e fisiológicas, é preciso, ainda, trilhar um longo e árduo caminho para se tornar uma mulher. Mas, posso afirmar: vale a pena!