Sobre a tragédia de Suzano

 

Não dá para ignorar a tragédia ocorrida ontem em Suzano-SP. Não é possível seguir a vida como se nada tivesse acontecido.

 É horrível acontecer duas pessoas – um rapaz de 17 anos e outro de 25 anos, entrando numa escola simplesmente para matar. Que impulso é este? Como se uniram para praticar uma barbaridade? De onde vem essa “amizade”?

Mas não estou aqui para comentar sobre o caráter criminoso, as teorias do crime, as excludentes de criminalidade. Nada justifica essa ação e ponto final. Pela lei brasileira, se não tivessem morrido não seriam punidos. Porque aqui a Justiça faz de conta que atua. Uma piada.

O que me espanta, mais do que o fato em si, é o embrutecimento das pessoas. Filmar cenas horrendas e publicar na internet. Aquilo não era um filme, não era uma cena de ficção, não era parte de um jogo violento. Aquilo eram vidas sendo estraçalhadas. Eram jovens morrendo no pátio da escola no horário de recreio.

Achei até conveniente a espécie de pane que me deixou quase sem redes sociais ontem, porque o pouco que naveguei era exploração sórdida do ocorrido.

Além das deploráveis cenas – fotos ou vídeos – da ação dos assassinos, um amontoado de besteira de grandes analistas.

O que aconteceu não tem nada a ver com a existência ou a inexistência do estatuto do desarmamento.

Os brasileiros querem o direito de possuir uma arma em casa – ninguém quer andar armado nas ruas porque aqui não é filme de faroeste.

Para os que são contra a revogação do estatuto do desarmamento:

A única arma de fogo portada pelos assassinos apresentava a numeração raspada, o que demonstra sua origem ilícita. Portanto, mesmo revogado o estatuto do desarmamento, essa situação não seria legalizada. A arma continuaria ilegal do mesmo jeito.

As outras armas utilizadas no ataque eram uma besta – arma medieval, e uma machadinha, arma imprópria do ponto de vista legal.

Será que os assassinos estavam brincando de jogos violentos ou de gibi de lutas? Como alguém pode ir atacar colegas de escola com uma besta e uma machadinha????

O que vemos é, na realidade, que uma população ser autorizada a possuir arma legalmente não é, só por esse motivo, uma sociedade perigosa, agressiva nem composta por assassinos. A sociedade brasileira, malgrado o estatuto do desarmamento, é tudo isso.

Para os que são a favor do estatuto do desarmamento:

A previsão legal é para posse E NÃO PORTE de arma.

Mesmo que a professora que foi morta logo na entrada ou outros funcionários venham a possuir armas, elas estariam nas residências e não na cintura deles. Não daria como utilizar nenhuma arma guardada em casa para repelir esse tipo de ataque.

Ou alguém espera que os professores entrem em sala de aula com uma pistola na cintura, para o caso de algum doido ir dar tiros dentro da escola?

Mesmo que venha a ser revogado o estatuto, nada vai impedir o comércio clandestino de armas, que sempre existiu e sempre existirá.

Resta a pergunta mais difícil: por que isso aconteceu?

Os motivos dessa tragédia fogem à simples questão do desarmamento. É bem mais complexa. Bem mais difícil. E envolve vários aspectos.

Realmente a violência está banalizada. Graças aos meios de comunicação. As crianças crescem vendo tiroteios e mortes na televisão. E não sabem as consequências do que viram, porque a notícia é só para chamar a atenção e vender o produto que será anunciado no intervalo. Sem qualquer responsabilidade sobre o que está sendo veiculado.

As famílias estão desintegradas. A violência está presente dentro dos lares – se é que a casa desses coitados pode ser chamada de lar. Porque quem vive em meio a brigas, gritos e espancamentos tem casa e abrigo, mas não tem lar.

A família, onde deve ser ensinado e praticado o respeito com outros seres humanos, falhou completamente.

As pessoas não tem mais os freios morais que eram impostos pela religião. Se não concorda com os limites éticos da religião, passa para outra ou funda a própria religião ou simplesmente deixa de ter qualquer religião, porque busca apenas o prazer imediatista físico e não se preocupa com as questões da ética e da convivência.

Falta senso de amizade. Um amigo hoje é tão descartável quanto um guardanapo de papel usado. E o mesmo com relação aos familiares. À esposa, ao marido, aos filhos, aos irmãos. Não há laços entre as pessoas que as impeçam de ferir, matar, atacar. Ninguém se importa em preservar o outro.

Não há lealdade. A traição é a norma. Os caras entram rindo na escola, a professora os acolhe como ex-alunos e é assassinada. Onde está a lealdade desses canalhas?

 Não há humanidade na ação dessas criaturas. E dar a desculpa que sofreu bullying?

  Quem não passou por isso?

Exatamente – passou. Do verbo seguir adiante, a mesma coisa que superar. Porque um cretino que não consegue seguir adiante depois de um dissabor, de uma brincadeira besta, não está apto a viver. Se o outro te incomoda, ou você se encolhe para sempre, ou muda de escola ou reage na hora à altura e se impõe. Voltar anos depois e matar todo mundo não se enquadra em nenhuma reação. 

Mas a geração floco de neve se desmancha por qualquer coisinha. Não é assim que se vive. Estamos criando uma geração mimizenta, sem vergonha, sem firmeza de caráter.

Portanto, o grande motivo dessas tragédias é um caldo cultural – violência banalizada e falta de família são os ingredientes principais.

E, para piorar tudo – porque nada está tão ruim que não possa piorar, além de tudo isso e essa mórbida e copiosa veiculação de cenas extremamente violentas, temos as opiniões cretinas de quem, por avidez, desumanidade, para tirar sua casquinha de vantagem política e puro oportunismo, aproveita a oportunidade para mostrar a ignorância que cultiva.