As palavras

 

La parole ne représente parfois qu’une manière, plus adroite que le silence, de se taire. (Simone de Beauvoir – La Force de l’âge)

 

As palavras têm vida própria, são mais que meros ajuntamentos de letras, justaposição de símbolos. 

Algumas palavras têm uma beleza intrínseca, não precisam de adjetivos para expressarem idéia, cheiro, gosto. 

Por exemplo, orvalho. 

Orvalho – só. Já nos leva a manhãs frias, enevoadas, um começo de dia antes do raiar do sol, o cheiro da grama, o canto dos pássaros. 

Basta pensar Orvalho! e a mente já disponibiliza cores, cheiros, sensações. 

Ou velório. Ninguém precisa muito esforço mental para idealizar as velas acesas, o cheiro das flores se emurchecendo, o som do pranto contido de alguns. 

Mas temos palavras mais animadas, como, por exemplo, a animadíssima pipoca.

 Leva-nos à infância, ao pipoqueiro da saída da escola com aquele molho de pimenta que queimava a mucosa da boca. As pipocas divididas com amigos e depois com enamorados namorados no cinema. E a infalível pipoca para assistir o futebol aos domingos na TV. Sente-se o cheiro da pipoca só de pensar. 

Quer melhor? Pizza!!!!  É possível comer pizza todos os dias do ano sem enjoar, até mesmo sem mudar o sabor. Quem não se anima só de ouvir a palavra pizza? E já visualiza as rodelas de tomate, o queijo derretendo de escorrer… 

Não é necessário ser comestível para despertar um ou mais sentidos. 

Por exemplo, azul. 

Todos visualizam o azul. Seja do céu, seja do mar, seja da parede atrás do sofá, seja dos olhos da pessoa amada.

 Missa! E já ouvimos sinos tocando, enxergamos o padre em sua longa batina branca, o imaculado altar a dominar a cena e o crucifixo em algum ponto desse cenário mental. 

Livro! Para alguns, atração irresistível, cheiro de papel, sons abafados de bibliotecas com suas imensas paredes cobertas de estantes e livros, luz repousante, cochichos e risadas mal-contidas dos grupos de estudantes. Para outros, nenhum significado, a não ser chateação, atividade maçante. (Tenho pena desses) 

É possível pegar-se um dicionário e ir passando as palavras vagarosamente, para deixá-las agir em nossa mente, sentindo o sabor, a cor, o cheiro, o som de cada uma. É uma experiência fascinante. 

As palavras brincam com quem sabe entendê-las, quem as ama de verdade. 

As letras correm, se unem, se separam, formam palavras, estas formam frases e no fim tudo volta a um simples alfabeto. 

Encantadoras as letras, são exatamente aquelas – de A a Z –  mas o que fazem no mundo! 

Constroem, enaltecem, engrandecem, destroem, humilham e aniquilam. 

Somente as letras podem fazer isso com as pessoas, com as reputações, com os ideais. 

Nos lábios da mulher apaixonada um simples sim abre as portas do mundo. 

Na voz de um vingativo homicida um sim desfaz uma vida. 

E assim as palavras seguem seus próprios destinos, independentes, perseverantes… E, muitas vezes, mais eloquentes que as palavras, exatamente sua ausência, o silêncio que fala por si… 

Mas uma palavra, em especial, me fascina. 

Uma palavra na qual se contêm sete palavras; uma palavra que me desafia continuamente, que me enlouquece ao tentar entender seu significado cada vez que a ouço: eternamente.

Ou É ter na mente

Ou Éter na mente

Ou Eterna mente

Ou ela mesma, minha inseparável e desafiadora ETERNAMENTE