Construindo a saudade

A saudade paira no ar como paina depois da florada. Cada um carrega em si suas próprias saudades. Mas o caminho para as possuir é igual para todos – temos de construir as memórias para então surgir a saudade.

Plantamos uma árvore e dela cuidamos com dedicação. Um dia ela amanhecerá florida inundando nossos olhos com tanta beleza. As flores cairão, mas na nossa mente, para sempre, ficará a lembrança da explosão de beleza que nossa árvore nos proporcionou.

Assim é a saudade. Ela só surge depois que fomos felizes. Depois que uma paixão explodiu no peito. Que um amor ardente foi vivido. Não há saudade do triste, do luto, da infelicidade. A saudade fica do que nos tocou no campo das emoções, como cordas de violinos, tirando os sons mais celestiais.

E ainda tem de haver distância. Não temos saudade do que nem de quem está próximo. Precisamos que um tempo se passe desde que tudo aconteceu para que surja a saudade. Precisamos que as pessoas amadas se afastem e se distanciem para então sentirmos saudade.

Feliz de quem tem saudade. Feliz de quem tem do que ter saudade.

Brincadeiras

Vamos conjugar o verbo amar

Eu te digo – eu te amo!

Você me responde – eu te amo!

Mas só no presente do indicativo

Não quero as falsas promessas do futuro

Nem as lágrimas do pretérito sempre imperfeito

 

Depois vamos brincar de abraçar

Eu abro meus braços e vou até você

Você abre seus braços e vem até mim

E nos encontramos no meio do caminho

Assim nos abraçamos fortemente

Em um abraço que não tem mais fim

 

Depois faremos o ritual de separar

Você me diz “eu te odeio” e então

Eu olho para você com olhos de desprezo

Não precisaremos inventar desculpas

Eu seguirei meu caminho solitário

E no sentido oposto você  partirá.

Não me chame outra vez!

 

Não me chame mais uma vez

Pode ser que eu não resista

A saudade dos teus braços

Poderá me arrastar até você

A falta do seu olhar apagou a luz dos meus olhos

A ausência dos seus beijos amargou a minha boca

E não mais tendo seu ombro para recostar

Eu não encontrei mais descanso

A vida é exatamente o que dela fazemos

Mas, às vezes, caímos em armadilhas

E nos distanciamos tanto assim

E o longe se instala em nossa vida

Sempre é hora de retomarmos as rédeas

E darmos novo rumo ao tempo

Antes que seja tarde demais

Por isso, não me chame mais uma vez

Não me diga de novo “venha…”

Pode ser que eu não resista…

Dia de Poesia – Carlos Drummond de Andrade – Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.

E lastimava, ignorante, a falta.

Hoje não a lastimo.

Não há falta na ausência.

A ausência é um estar em mim.

E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,

que rio e danço e invento exclamações alegres,

porque a ausência, essa ausência assimilada,

ninguém a rouba mais de mim.

Piedade, Senhor

E dizia a todos: Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me. (Lucas, 9:23)

 

 

Piedade, Senhor, a esta peregrina pecadora!

Piedade por minhas fraquezas que me levaram a pecar.

Piedade por não conseguir ajudar meu irmão a não viver em pecado.

Piedade por não entender os planos traçados para meu destino e por vezes me revoltar.

Piedade por tanto pedir e tão pouco agradecer.

Senhor, permita-me aliviar o peso da cruz dos irmãos e ajudá-los a carregá-la.

Eu peço, Senhor, que se algum dia cair sob o peso de minha cruz, consiga forças para me reerguer e continuar a cumprir minha caminhada.

Eu peço, Senhor, caminhe comigo, a meu lado, dando-me conforto e mostrando os perigos da caminhada e que eu perceba sempre que o Senhor caminha junto de mim.

Não peço, Senhor, que me alivie do peso da minha cruz, mas imploro, Pai, que fortaleça meu ombro para que possa carregá-la com alegria de dever cumprido.

Que a alegria de Cristo esteja sempre comigo, mesmo nas horas mais tristes, porque estas são parte de Seu plano para mim.

Que as forças nunca me faltem quando chegarem as tempestades da vida.

Que eu seja forte por mim e para socorrer o irmão que estiver sofrendo.

Piedade, Senhor, piedade de mim.

Quando enfim encerrar minha jornada, depois de cumprir Seus planos a mim destinados, que eu possa ajoelhar em Sua frente, ali depositar minha cruz e finalmente, olhar para Sua Sagrada Face.