Dia de Poesia – Miguel Torga – Poema Melancólico a não sei que Mulher

Dei-te os dias, as horas e os minutos

Destes anos de vida que passaram;

Nos meus versos ficaram

Imagens que são máscaras anónimas

Do teu rosto proibido;

A fome insatisfeita que senti

Era de ti,

Fome do instinto que não foi ouvido.

Agora retrocedo, leio os versos,

Conto as desilusões no rol do coração,

Recordo o pesadelo dos desejos,

Olho o deserto humano desolado,

E pergunto porquê, por que razão

Nas dunas do teu peito o vento passa

Sem tropeçar na graça

Do mais leve sinal da minha mão… 

 

Inferno

Lasciate ogni speranza voi ch’entrate

Diz o grande poeta Dante Aligheri que esta frase está na entrada do inferno – “Abandone toda a esperança vós que entrais aqui”. Não sei se o inferno tem entrada, muito menos se na entrada tem placa. Nem pretendo conferir.

Mas não nego que essa frase é instigante.

Sou movida a esperança. Esperança + perseverança = minha caraterística mais forte.

Poucas vezes desisti de algo. E não é bem desistir. Sou enxadrista. Às vezes chegamos em um ponto que a única saída é deitar o rei. Mas antes todas as tentativas foram feitas, todas as estratégias aplicadas.

Aí diz o Poeta: abandonai toda a esperança… Por que? Talvez porque ele pense que o inferno só tem a porta de entrada. Talvez porque ele vivia em algum inferno e não via saída.

O inferno não é no subsolo da vida nem da morte. O inferno é aqui.

Há pessoas que se especializam em tornar a vida dos outros um inferno particular. E há pessoas que permitem que outras tornem sua vida um inferno.

Aí tem mesmo de abandonar toda esperança se não tiver coragem para romper esse círculo vicioso de dominação.

Mas quem não desiste sabe que até no inferno há de ter uma porta de saída. Uma forma de se livrar das correntes que o prendem lá.

Esse inferno, que acontece nesta vida, e acredito ser o pior de todos, tem sim, uma porta de saída.

E uma palavra mágica que abre essa porta: “BASTA”. É só dizê-la. E não desistir antes e perder a esperança.

Dia de poesia – Antonio Ramos Rosa – Não posso adiar

(…)

Não posso adiar este abraço

que é uma arma de dois gumes

amor e ódio

Não posso adiar

ainda que a noite pese séculos sobre as costas

e a aurora indecisa demore

não posso adiar para outro século a minha vida

nem o meu amor

nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração.»

Dia de Poesia – Mario Quintana – A rua dos cataventos

Da primeira vez em que me assassinaram

Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.

Depois, a cada vez que me mataram

Foram levando qualquer coisa minha.

 

 Hoje, dos meus cadáveres eu sou

O mais desnudo, o que não tem mais nada.

Arde um todo de vela amarelada,

Como único bem que me ficou.

 

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!

Pois dessa mão avaramente adunca

Não haverão de arrancar a luz sagrada!

 

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!

Que a luz trêmula e triste como um ai,

A luz de morto não se apaga nunca!

Nova poesia

Quando você pensa já ter visto de tudo, lido todas as formas de poesia, vem mais surpresa.

Há alguns meses Ana Maria Tourinho com seu “Desfolhando Aldravias”, colocou-me frente a essa nova forma de poesia, inovação trazida por Andreia Donadon Leal. De imediato eu me apaixonei. E tornei-me, eu também, aldravista.

Agora, quando a aldravia já estava incorporada no meu cotidiano de poeta, Andreia Donadon Leal surge com outra novidade – a “Quinta”.

Variante da Quintanilha, a Quinta – poema autônomo de uma estrofe composta por cinco versos, com rima obrigatória do 2º com o 5º, e formada por nove palavras. Os quatro primeiros versos com duas palavras e o quinto contendo apenas uma, a qual rima com a segunda. Complicadinho, não?

Mas delicioso de escrever, tal como a aldravia.

Necessário ter nexo e poesia. Não apenas palavras soltas, jogadas no papel ou na tela. A poesia é a essência da Quinta.

Estreei hoje no grupo de quintanistas, com três Quintas.

Vamos praticando…

Nº 03

sem perfume

colhida flor

fenece triste

igual velho

       amor