Dia de Vinicius de Moraes – A rosa desfolhada

 

Tento compor o nosso amor
Dentro da tua ausência
Toda a loucura, todo o martírio
De uma paixão imensa

Teu toca-discos, nosso retrato
Um tempo descuidado
Tudo pisado, tudo partido
Tudo no chão, jogado

E em cada canto
Teu desencanto, tua melancolia
Teu triste vulto desesperado
Ante o que eu te dizia

E logo o espanto e logo o insulto
O amor dilacerado
E logo o pranto ante a agonia
Do fato consumado

Silenciosa ficou a rosa
No chão despetalada
Que eu com meus dedos, tentei a medo
Reconstruir do nada

O teu perfume, teus doces pelos
A tua pele amada
Tudo desfeito, tudo perdido
A rosa desfolhada

para ouvir e conferir:

 

Copos vazios

Colocou os dois copos sobre o granito frio da pia. Não conseguiu se afastar, ficou ali, como em transe, olhando para os copos vazios.

Delicadamente correu os dedos pelas bordas. E sentiu o cheiro do fim da bebida que ainda havia no fundo do copo.

Dentro de si também ainda havia o perfume do que se fora, de tudo o que sonhara, de um passado que agora estava definitivamente terminado. Quando o viu chegar não conseguiu conter uma alegria dentro do peito, acreditando que tudo voltaria a ser como antes. Não havia razão para se separarem. Mesmo ele estando errado, ela já o perdoara. Era mais importante mantê-lo em sua vida.

Conversaram muito. Ele admitiu que errara, que não devia ter se comportando como um moleque inconsequente, a ponto de destruir uma relação tão bonita. Estava visivelmente arrependido. Ela via crescer sua sensação que voltariam a ficar juntos.

Porém, a conversa tomou outro rumo.

E ele disse que nesses dias separados, pensara muito em tudo o que aconteceu, o que esperava ou não da vida, que na verdade repensara toda sua vida. E tomara uma decisão definitiva.

Estava indo embora.

Resolvera aceitar uma proposta que já pairava em sua vida há algumas semanas.

Portanto, viera apenas para se despedir porque não queria ir embora como quem foge. Não estava fugindo. Apenas recomeçando.

Terminou o whisky, deu-lhe um abraço e se foi.

Restaram na sala um coração cheio de dor e dois copos vazios…

Dia de poesia – Miguel Torga – Súplica

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria…
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.

 

De saudades e esperanças

Só faz versos quem tem a alma cheia de saudades ou de esperanças. (Camilo Castelo Branco)

                         

Desafio do dia: interpretar essa frase, gravada acima, do grande escritor e poeta português, dirigida aos poetas.

Já registro, de início, que concordo, em parte, com o poeta lusitano.

Quem tem alma vazia de emoções ou cheia de materialismo, jamais conseguirá compor um único verso de uma estrofe.

Saudades e esperanças – exatamente o que alimenta a alma dos poetas.

Mas daí surge a dúvida: por que Camilo Castelo Branco diz “saudades ou esperanças”?

Ter saudades é incompatível com ter esperanças? Por que não saudades E esperanças?

Nesse particular eu discordo do talentoso escritor.

Sou poeta.

E minha alma é plena de saudades e de esperanças.

Porque ter só saudades, sem ter esperanças, fatalmente levará à desesperança. Que é mais que o simples desespero que causou o trágico fim do poeta português.

Isso porque a saudade nos isola, tira a realidade, deixa-nos sós, à beira do precipício.

A saudade, composta apenas de ausência, é o maior tormento de uma alma.

É o nada ao qual nos apegamos para não morrermos de desespero. Quando não resta mais nada, vem a saudade ocupar os espaços abandonados em nosso ser.

E se formos apenas saudade, não teremos outro futuro senão mergulhar no escuro vazio à nossa frente.

Mas, se ao lado da saudade, mantivermos a chama da esperança, tudo muda.

Porque a esperança é o oxigênio que mantém acesa a última vela no escuro do coração.

A função da esperança é manter vivas as brasas sob as cinzas da saudade; alimentar a vontade de viver.

Esperança é o fio que nos prende à vida e impede que nos lancemos no precipício do desespero, do abandono, da saudade.

Somente a esperança nos faz sobreviver à derrocada da solidão e da saudade.

Ouso, então, Poeta, por mais que respeite seu legado – por minha experiência de escrever, eu também, meus versos, e trazer a alma inundada de saudades e algumas esperança – corrigir sua frase: “Só faz versos quem tem a alma cheia de saudades E de esperanças”.

Dia de Poesia – Roberto Ferrari – Apaixonados

Somos dois loucos apaixonados
Vivendo em nosso mundo de amor,
Longe dos percalços da vida…
Como se fôssemos para o nosso paraíso
Onde o cantar dos pássaros e o murmurinho da cascata nos fazem companhia.
Beijos e carícias
Tomados de amor.
Nada importa,
O que importa é essa vontade
De ficarmos juntos,
Onde só o tempo nos persegue,
E nosso único refugio são as estrelas e a lua
Testemunham nossa paixão;
Paixão que aflora em nossa pele
E só temos ouvidos para as juras de amor,
E pensamentos de ficarmos eternamente juntos
Nesse paraíso encantado,
Onde as ondas da paixão
Vem e ficam,
Porque somos dois loucos…
APAIXONADOS!!!
Amo-te para todo sempre!!!

O ciúme

Dorme ponte, Pernambuco, Rio Bahia

Só vigia um ponto negro: o meu ciúme

O ciúme lançou sua flecha preta

E se viu ferido justo na garganta

Que nem alegre, nem triste, nem poeta

Entre Petrolina e Juazeiro canta

…………………………………………………

Sobre toda estrada, sobre toda sala

Paira, monstruosa, a sombra do ciúme

(Caetano Veloso)

 

Jalousie

Gelosia

קנאה

Eifersucht

Ljubomora

ζήλια

Celos

Zorgojn

غيرة

Féltékenység

Jealous

ねたみ

Cemburu

Ревность

Žárlivost

Kıskançlık

Isso é apenas uma amostra. O monstro destruidor de vidas existe em todos os cantos do mundo, em todas as línguas, em todos os povos.

Junto com a paixão, acredito que seja o sentimento mais devastador da alma humana.

Enquanto a paixão eleva o ser à potência máxima do prazer e da felicidade, o ciúme o rebaixa ao último degrau da indignidade, destruindo quem sente e quem é o objeto dele.

Quando se ouve – estou morrendo de paixão, temos diante de nós um ser humano encantado por outro ser. Mas se ouvir – matei por paixão, esse ser vil está mentindo. Matou por ciúmes. Ninguém mata por paixão.

E o que é exatamente o ciúme?

Para François de La Rochefoucauld, « O ciúme, o receio de deixar, o medo de ser deixado, são as dores inseparáveis do declínio do amor.”, enquanto Ivan Teorilang o define como “um dos mais infelizes sentimentos inerentes ao ser humano. Ele magoa, fere, destrói e mata, e se pode ter estas características, como associar isso ao amor?”.

Afirma o professor Eugenio Mussak que “não é errado sentir ciúmes.”, sendo que existem dois tipos de ciúmes, o externo e o interno, sendo o externo aquele que a pessoa dá causa, mediante provocação da outra pessoa, enquanto o ciúme interno decorre da própria insegurança ou falta de autoestima. E que “errado é transformar o ciúme em uma compulsão irracional”.

Na minha amadora e modesta opinião, não são dois tipos de ciúmes.

Quem se relaciona com uma pessoa vil que se dedica a despertar o sentimento do ciúme, e não põe um ponto final, simplesmente não tem autoestima. Não se ama. Ou seja, não há ciúme externo.

O ciúme é só interno. Nascido da insegurança, falta de autoestima, sentimento de inferioridade. Uma pessoa que na infância foi alvo de muita exigência, muitas críticas, ou agressões, quando adulto não terá ferramentas para desenvolver a autoestima suficiente para ter segurança em relacionamentos amorosos.

E esse sentimento de inferioridade com relação aos outros seres do mesmo sexo o fará imaginar sempre que está “perdendo” para o outro. Seja na posição social, seja, no desempenho profissional, seja no relacionamento pessoal com outras pessoas.

O ciúme é como a forte enxurrada – destrói tudo o que encontra pela frente. Arrasta a dignidade dos envolvidos. Acaba com o relacionamento. Deixa um rastro de sofrimento atrás de si.

Tudo, na maioria das vezes, gerado por uma ideia, uma simples suposição.

O ciumento se afunda na própria insegurança e começa a ver o que não existe. Parte de falsas premissas e obtém resultados equivocados.

Vive envenenado e envenenando. Até conseguir arrebentar a outra pessoa, que acabará por se afastar como autopreservação. Então dirá: “Eu estava certo. Estava sendo traído.” E ponto final.

Não há cura para o ciúme nem antídoto para um relacionamento que o ciúme já envenenou.

O relacionamento acaba – seja pela destruição física, seja pela derrota emocional do outro. E o ciumento terá o destino de viver sozinho, porque ninguém é obrigado a aguentar esse inferno que o ciúme traz consigo.

Se o céu é para todos, a ninguém é dado ter um inferno particular, só para si…

Dia de Poesia – Miguel Torga – Poema Melancólico a não sei que Mulher

Dei-te os dias, as horas e os minutos

Destes anos de vida que passaram;

Nos meus versos ficaram

Imagens que são máscaras anónimas

Do teu rosto proibido;

A fome insatisfeita que senti

Era de ti,

Fome do instinto que não foi ouvido.

Agora retrocedo, leio os versos,

Conto as desilusões no rol do coração,

Recordo o pesadelo dos desejos,

Olho o deserto humano desolado,

E pergunto porquê, por que razão

Nas dunas do teu peito o vento passa

Sem tropeçar na graça

Do mais leve sinal da minha mão…