Delírios de quarentena

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Todas as janelas permaneciam fechadas e as portas não se abriam. Nas ruas não havia pedintes, nem crianças nem mesmo cães vadios.

Nenhuma loja aberta. Era o longo feriado mundial nunca visto antes – 9º dia de confinamento compulsório, em razão da grande peste que assolava todos os países.

Já nem se preocupava em abrir janelas, nem acender a luz, muito menos se alimentar. Às vezes ainda se obrigava a tomar um copo de água.

Pensava no seu amor, pego em país tão distante, quase no dia do retorno. Talvez nunca mais voltasse. Talvez nunca mais se vissem. Talvez morressem em terras distantes. Talvez… talvez… talvez. Não havia mais certezas. Somente talvez…

Contou novamente quantas pregas existiam na densa cortina da sala.

Ouviu o som de um soluço abafado. A vizinha não aguentava mais a pressão de ficar sozinha com seus pensamentos e agora chorava o dia inteiro. Ou já seria noite? Também não importava. Dias e noites se tornaram exatamente iguais.

Realmente, não havia mais nenhuma certeza. Nem mesmo que ainda vivesse. Mas não fazia diferença. A vida e a morte começavam a ter a mesma face.

Sentiu saudade do mar. Há quantos anos deixara de ir para o litoral, olhar para o mar que tanto amara em sua juventude… não imaginava que a vida acabaria assim, na penumbra de uma sala deserta, em completa solidão.

Depois do terceiro ou quarto dia cessaram os carros e motos na rua. Nem uma buzina. Depois as sirenes. Não havia mais doentes a serem transportados. Nem cadáveres a serem resgatados. E não eram diferentes, os doentes não passavam de pré-cadáveres, tirados das casas para que a moléstia não se disseminasse

ainda mais. Deixados em algum lugar para que morressem, porque não havia cura.

E o mundo foi silenciando.

No começo se assustava quando ouvia o som do sangue circulando nos ouvidos, quando ouvia as batidas do próprio coração. O silêncio era tanto, tanto, que ensurdecia, incomodava, causava dor.

Mas se acostumou.

O relógio parou por falta de corda. Não se preocupou, porque as horas eram todas iguais.

Também o sino da igreja se calou. Talvez o moleque que se pendurava nas cordas tivesse morrido de peste. Ou o próprio padre, e levou no bolso da batina a grande chave do templo.

E as pessoas foram se distanciando. A ponto de perderem o sentido comunitário, de não mais conseguirem sentir compaixão.

E as portas se fecharam definitivamente.

E cada um tornou-se ilha e muralha de si mesmo, em uma solidão amarga e indesejada.

Não mais amanhecia nem anoitecia.

Imaginou então, que era o começo do fim do mundo.

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