De amar

 

Naquele Segundo.: AMAR TE FAZ MAIS AMAR 09/01/2019

Seus olhos me atraem e meus olhos procuram os seus

Seus carinhos me cativam e despertam todas as sensações

Sua voz me chama docemente e eu vou até você

Sua boca me cala em um beijo intenso, sem fim

Seus braços me enlaçam, me prendem, acorrentam

Seu corpo me possui com tanta paixão e eu correspondo

Sua sede de vida me encanta, por isso amo tanto você.

E me sinto amada, esperada, desejada e querida.

Paixão, encanto, feitiço, desejo, loucura… não sei…

Meu sentimento não tem rótulo, não precisa de nome

Basta-me que exista. Esteja vivo. Tire meu chão e me dê asas

Eu sinto. Sou feliz. E isso é o que importa: simplesmente

Amar e ser amada. Plenamente. Nada mais. Nada menos.

Ruas

Rua do Professor, Ribeirão Preto | Mapio.net

 

Vejo as ruas desertas de pessoas a pé. Lembro-me de minha infância e adolescência. Não tive “mãetorista”. Apenas em alguns casos éramos levados de automóvel nos lugares. Porque, à  escola, às atividades extracurriculares – conservatório musical, aulas de línguas estrangeiras, cursos que resolvíamos fazer – bem como cinema, compras, casas de amigos, festinhas e tudo o mais, era para ir a pé. Sozinha, com irmãos, com amigos, em grupos, apenas pedíamos autorização e avisávamos que estávamos indo. E sempre hora marcada do retorno, vamos deixar bem claro. E isso era liberdade.

Andávamos. Caminhávamos. Passeávamos. Sempre a pé.

Acho que isso desenvolve um outro sentido, não sei se sétimo, oitavo ou nono. A percepção da rua.

Hoje vivemos em outro mundo. Não há mais rua nesse sentido. Apenas artérias de passagem de carros. Há lugares, em praticamente todas as cidades, em que se veem carros e motocicletas nas ruas. E nenhuma pessoa. Simplesmente as calçadas completamente inúteis e vazias.

Aqui no interior, mesmo em tempos anteriores à peste chinesa, a região onde moro é assim. Na avenida principal, no começo da manhã e final da tarde nós nos deparamos com “atletas” – roupinhas típicas, boné e tênis, fazendo exercício. Mas o resto do dia é um deserto de pessoas, uma cidade de veículos motorizados. Sem população.

Não é meu mundo. Gosto de andar a pé.

Nos anos em que morei no Guarujá, nem levei o carro. Deixei-o em uma garagem da casa de meus pais, em Ribeirão Preto.

Andava tanto lá, que, por brincadeira, adquiri e comecei a usar um aparelhinho que media os passos, e, durante os meses em que fiz uma reforma em um imóvel – fazendo todas as compras a pé – eu andava, em média, vinte quilômetros por dia.

Sem contar a infalível caminhada matinal à beira mar – entre seis e dezoito quilômetros/dia. Dependia mais do tempo disponível para caminhar do que disposição física ou cansaço.

Em São Paulo, também onde prefiro não dirigir nem ter carro, meu local de trabalho distava cerca de um quilômetro minha casa. Que foi cirurgicamente escolhida para me proporcionar a liberdade de andar a pé. Na hora de ir, geralmente, pegava um táxi. Mas voltava a pé. Especialmente no horário de verão, entre 18h30 e 19h00. Caminhava do Paraíso ao longo da Paulista até a Pamplona. E descia até a Lorena.

Em volta tenho tudo o que necessito. Faço tudo sem precisar de carro. Por isso, também, amo ficar por lá.

Sempre amei andar a pé em São Paulo. A beleza de São Paulo não é escancarada, para qualquer um chegar e se encantar. Não, São Paulo é de uma beleza peculiar, um encanto que se mostra aos poucos, só para “os iniciados”.

Quando eu trabalhava em um escritório do centro, no milênio passado, amava aquelas ruas antigas (ainda não havia as nojentas pichações como se veem hoje por todo lado). E era República, Barão, Sete de Abril, Patriarca, Santa Ifigênia… que coisa linda era o viaduto Santa Ifigênia, com seu gradil estilo “belle époque”. As fachadas dos prédios no centro, os canteiros, o Teatro…

Agora tudo é um lixo. A porquice do povo, o descaso da prefeitura, a invasão de estrangeiros de baixa categoria… minha cidade se acabou.

Andava em Paris, Roma, Madrid, e outras capitais que até quatro ou cinco anos possuíam seus centros preservados. Tudo lindo. Tudo encantador.

Depois dos atentados no Bataclan, em Paris, e na Promenade des Anglais, a linda “La Prom”,em Nice, e vendo, ainda, esse aumento desenfreado de “refugiados” porcos e violentos, a degradação dessas cidades também desanimou de frequentá-las. Estão feias. Ponto comum entre a maioria, são as prefeituras de esquerda. Onde era um patrimônio cultural da humanidade, hoje é lixo.

E assim o mundo, que era tão grande, foi se encolhendo.

E, há um mês, o meu mundo se resume a uma casa.

Uma casa se tornou o mundo de quem ainda tem sorte de ter uma casa.

E as ruas, a cada dia mais desertas, só nos dão a dimensão da tristeza de ainda estarmos vivos.

Tempos de peste

Acordou no meio da noite, ao ouvir o barulho de passos. Devia ser o filho chegando. Sentiu frio ao se levantar da cama. Vestiu um roupão e saiu do quarto. A casa continuava escura.

Os caminhos eram tão familiares que nem precisava acender as luzes. Foi até o quarto do filho. Vazio.

Desceu a escada, onde havia a lâmpada automática, e entrou na sala escura. Copa escura. Cozinha com as luzes apagadas. A casa era a própria escuridão.

De quem seriam os passos ouvidos?

Voltou para a sala. Agora não queria mais dormir.

Deitou-se no sofá. Cochilou. Acordou ouvindo passos. E gritos.

Eram os meninos chegando da escola. Animados, corados, suados da correria pela calçada. Jogaram as malinhas num canto e correram para a copa.

“Mãe, tô com fome”.

– Sai da mesa, filho. Vai lavar as mãos, o rosto e se pentear. Abotoa a camisa que aqui não é casa de soldado. E você, tira esse boné para se sentar à mesa. Já lavou as mãos? E você, senta direito, parece que não tem ossos no corpo”

Então, todos prontos, sentaram-se à mesa para o almoço.

O dia estava frio. Muito frio. Ela pensou em ir até o quarto pegar uma blusa mais grossa, mas achou que iria se esquentar quando começasse a arrumar a cozinha, limpar chão, voltar ao serviço de todo dia.

Ouviu sua própria voz dando todas as ordens aos meninos.

E eles obedeciam. Às vezes resmungando, mas obedeciam. Sentavam-se, rezavam, e comiam. Era um momento íntimo entre mãe e filhos. O pai só estava à mesa na hora do jantar. Quando os interrogava sobre o dia, a escola, os colegas, o que aprenderam, do que brincaram. E então o pai contava histórias, de seu próprio pai, de seu avô e de tantas pessoas da família, que parecia pertencer a alguma família de romances, tantos eram os personagens.

E os meninos riam. E perguntavam. E participavam.

Eram uma família.

Com amor e orgulho ela olhava para os três filhos. Meninos de ouro. Ela sabia que seriam homens sérios. Bons. Trabalhadores.

O silêncio foi cortado por barulho de passos.

Ela acordou assustada. Era madrugada, ainda, estava deitada na sala escura. Gelada de frio. E não havia ninguém em casa.

Percebeu que sonhara.

Isso era saudade. Do marido, dos filhos, da vida que um dia tivera. Da casa cheia, bagunçada e barulhenta. Porque era uma casa viva.

Agora tudo ficava na penumbra. Nada saía do lugar, porque ela ficava quase sempre na cama, sem vontade de se levantar. Ninguém mexia em nada, ninguém usava nada.

Lembrou-se da angústia que sentiu na época da peste chinesa. O marido chegou gripado do trabalho. Depois de dois dias começou a passar muito mal. Necessitou ser hospitalizado. Não resistiu. E eles foram postos em isolamento. Souberam que havia uma peste dizimando a população.

Os gêmeos, asmáticos, morreram duas semanas depois da morte do pai.

Eles, que antes eram cinco, em menos de quinze dias se tornaram dois. Duas almas penadas andando pela casa, atônitos, assustados, sem entender o que estava acontecendo.

Cadê nossa família? Perguntavam um ao outro, aflitos, e se abraçavam chorando.

Foram meses e meses, que se transformaram em anos de isolamento. Vizinhos traziam alimentos e deixavam na escadinha da entrada. Ninguém podia se aproximar de ninguém. As notícias mais terríveis chegavam de todos os lados. Muitas pessoas morrendo. Em algumas casas do quarteirão onde moravam, simplesmente as luzes pararam de se acender, e o mato cresceu abafando as rosas dos jardins. A família morrera. Ninguém comprava propriedades. Ninguém visitava familiares. Os telefones se tornaram, depois de alguns meses, objetos inúteis, porque não havia mais a quem ligar.

Pela internet ainda se comunicavam. Depois, foram parando de se encontrar virtualmente. E o aparelho foi deixado sem carga, porque só era usado para avisos do governo, mandando ficar em casa.

Sua vida era dormir, rezar e chorar.

O filho se tornou um rapaz triste. Apático.

A casa envelheceu entristecida.

Não sabia quanto tempo ficou proibida de sair.

E, no dia em que o carro de som passou na rua avisando a população que finalmente podiam voltar à vida, já não havia mais vida para voltar.

A cidade era um deserto. Muitos que não morreram da peste, morreram de fome ou se mataram, porque não podiam sair, não podiam trabalhar, perderam o controle sobre as próprias emoções.

Ela saía algumas vezes, mas não se sentia viva.

Outras pessoas foram chegando, ocupando as casas vazias, reabrindo o comércio.

O filho saiu um dia, pela manhã. E não voltou. Ela esperou. E esperou. E ainda esperava.

Já nem sabia há quantos anos.

E ouvia seus passos. Ele andava pela casa. E ela o procurava, mas não o encontrava. Só podia ouvir seus passos.

Beijos

Acabo de descobrir que ontem foi o Dia Internacional do Beijo (que tanto pode ser comemorado no dia 13/04 quanto no dia 06/07). Vou postar textos de diversos autores, que falam sobre o beijo. Começo com o magistral Olavo Bilac:

Um beijo

Foste o beijo melhor da minha vida, 
ou talvez o pior…Glória e tormento, 
contigo à luz subi do firmamento, 
contigo fui pela infernal descida! 

Morreste, e o meu desejo não te olvida: 
queimas-me o sangue, enches-me o pensamento, 
e do teu gosto amargo me alimento, 
e rolo-te na boca malferida. 

Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo, 
batismo e extrema-unção, naquele instante 
por que, feliz, eu não morri contigo? 

Sinto-me o ardor, e o crepitar te escuto, 
beijo divino! e anseio delirante, 
na perpétua saudade de um minuto…

 

E mais Bilac

Quero um beijo sem fim,
Que dure a vida inteira
E aplaque o meu desejo
Ferve-me o sangue:
Acalma-o com teu beijo.

 

O Beijo Eterno - Idilio - Descubra Sampa

E sigo com Dominguinhos:

Tô com saudade de tu, meu desejo
Tô com saudade do beijo e do mel
Do teu olhar carinhoso
Do teu abraço gostoso
De passear no teu céu
É tão difícil ficar sem você
O teu amor é gostoso demais

 

E ainda Martha Medeiros

Foi um beijo… 

foi um beijo onde não importava a boca
só tuas mãos quentes me apertando pelas costas
nada estava acontecendo na minha frente
e a ansiedade que havia não era pouca
teus dedos perguntavam pra minha blusa
se meu corpo acolheria um delinquente
descoladas as línguas um instante
minha resposta saiu um tanto rouca

 

Quadro Gustav Klimt - O beijo

E Chico Buarque

Soneto

Por que me descobriste no abandono
Com que tortura me arrancaste um beijo
Por que me incendiaste de desejo
Quando eu estava bem, morta de sono

Ainda, Adélia Prado

A vida é muito bonita,
basta um beijo
e a delicada engrenagem movimenta-se,
uma necessidade cósmica nos protege.”

V-J Day in Times Square – Wikipédia, a enciclopédia livre

E encerro com Augusto Branco:

 

Te levarei ao inferno
para te dar um beijo ardente
E meus braços queimarão
Ao agarrarem teu corpo em brasa

Quero te ter louca, cálida,densa, inconsequente
Pra viver contigo um romance tórrido eternamente
E exorcizar de mim este sentimento que me abrasa

Te levarei ao inferno 
Pra que tu sejas meu paraíso
Te levarei ao inferno para te dar um beijo ardente…

 

Há muito, muito, a se falar do beijo. Do abraço, da paixão e da saudade. Mas hoje passei a palavra a outros…

 

Herói de verdade

Escrevi esse texto em 27 de março de 2011, quando testemunhei todo o desenrolar da ação. Conversei com o nadador que salvou o garoto, enquanto esperávamos o resgate. Ele foi levado, exausto e ferido, para o hospital. Vi que os verdadeiros heróis são anônimos. Mas com um senso de humanidade e solidariedade acima da média. 

 

Ilha Pompeba, Guaruja | Ou Ilha do Tony, em homenagem a surf… | Flickr

Caminhava na linha do mar esta manhã quando foram ouvidos gritos de socorro. Todos que estão na praia param, para tentar avistar quem pede ajuda, e logo se vê um garoto que pede socorro, sendo arrastado pela correnteza, para os lados da ilha Pompeba. 

Não há guarda-vidas por perto, estamos na baixa estação, o pessoal extra já foi dispensado. Começa o ajuntamento de pessoas, que entre apavoradas e fascinadas assistem o mar levando o garoto. Será que pensam que isso é filme holliwoodiano e que no fim tudo sempre acaba bem? 

Um banhista começa a nadar em direção ao garoto. Não dá para ver se o alcançou. Ambos somem atrás das altas ondas. Em mais ou menos um minuto a um minuto e meio, alguns guarda-vidas chegam correndo, entram no mar, vão para o local onde por vezes apontam que os dois sumiram. 

De repente parece que ambos estão quase na ilha. Lugar muito perigoso. O mar hoje está bem agitado. Claríssimo, verdíssimo, ondas de espuma muito branca, mas com uma correnteza forte, puxando bastante.

 Cinco guarda-vidas munidos de boias estão próximos dos dois – o banhista não soltou o garoto – e tentam tirá-los da correnteza com auxílio ainda de dois anjos surfistas com suas pranchas. Naquele local há umas armadilhas – você não tem como sair do lugar, a correnteza impede qualquer tentativa de se distanciar da ilha ou ir em direção à praia. Há três ou quatro semanas assisti, aqui de minha sacada, a retirada de uma garota morta, encontrada pelos mergulhadores – vinte anos de idade, viera passar o final de semana aqui com o namorado. Não viveu para voltar para casa. 

Finalmente chega o bote – sei que não demoraram, mas o desespero de ver a luta inútil do banhista que segura o garoto, dois surfistas com suas pranchas e cinco guarda-vidas com suas boias faz parecer que se passou muito mais tempo. 

O bote dá duas ou três voltas, consegue vencer marola e onda altas, passa dos que tentam salvar e finalmente se aproxima dos dois. 

Habilmente são içados para o interior seguro do bote, que vêm para a praia e os traz em segurança. Vivos. 

O garoto está bem, um pouco assustado. O herói anônimo que não hesitou em se lançar contra a correnteza para impedir que o mar levasse o incauto banhista, traz as costas feridas, os braços lanhados, de onde o sangue escorre e as mãos cheias de espinhos – para impedir que o menino fosse lançado contra as pedras da ilha, segurava-o de lado e com a outra mão tentava se afastar das pedras – com pontas e espinhos, que o feriam a cada tentativa – mas não impediram que mantivesse o garoto junto de si até serem salvos. 

Emocionante a atitude deste nadador – não conhecia o menino, apenas afirmou que ao ouvir os gritos de socorro e avistar o garoto sendo arrastado, não parou para pensar no perigo, mas lançou-se em sua direção, para mantê-lo na tona até que o socorro viesse. 

Sem dúvida, um ser humano de primeira linha. Que Deus o abençoe!