Relógio

Eu quero hoje um novo relógio,

diferente de todos os outros

que tenho ou que um dia já tive.

Um relógio com sábios ponteiros.

Que não venham apenas para mostrar

e marcar horas, minutos e segundos.

Mas ponteiros que marquem alegrias,

sorrisos e também os encantos.

Que marquem as horas mais felizes,

todos os minutos de espera

e os segundos de paixão ardente.

Quero um relógio que não me desperte

no meio de um sonho que quero sonhar.

Que deixe meu sono fluir quando estou

adormecida no aconchego do amor.

Quero esse relógio especial,

que me ajude a dormir e a sonhar.

Que apague todos os maus ruídos,

e me embale em suave melodia.

Relógio novo que me acorde para a vida,

sem ouro nem prata, apenas simples,

mas seja capaz de me abrir a janela

de um novo horizonte, um novo viver.

Para meu pai

Depois de passado um ano de sua morte, a falta que meu pai faz só faz crescer. E também a saudade.

Repito aqui o texto que escrevi na época, porque nada mudou…

“Para meu pai

Quando eu era só a criança que ainda habita em mim, pequena e assustada, ele era meu herói-todo-poderoso.

Matava as baratas que me aterrorizavam, explicava os barulhos noturnos e afastava os fantasmas. Dirigia o carro para fora dos temporais e o tirava de todos os atoleiros… Montava o cavalo com a maior facilidade, e cavalgava lindamente. Tinha uma pontaria incrível, acertava os discos lançados, e nunca voltou de mãos vazias das caçadas.

Ele remava no rio. Ele me levava mar adentro e ensinava a não ter medo. Nunca contei para ele, mas eu morria de medo da pinguela na fazenda, principalmente quando anoitecia e eu passava sozinha – às vezes carregando algum objeto – sem enxergar nada e temendo cair no rio. Mas nada dizia, porque ele admirava e elogiava a coragem. E poderia não querer mais me levar junto. Quando a água estava alta, aí ele me dava a mão para atravessar e o medo desaparecia.

Então eu cresci. E seus ensinamentos mudaram. Era sobre a seriedade no trato com as pessoas, a honestidade nos negócios, e a justiça em todas os atos.

Era sobre respeito e religião.

Era sobre ter responsabilidade sobre os próprios atos, assumir os erros.

E a vida fluiu, seguiu seu curso.

E seus lindos olhos verdes se iluminavam cada vez que eu regressava à casa, e seu sorriso me acolhia.

Nunca cobrou nada de mim. Entendia minha vida corrida e a necessidade da minha ausência.

Mostrava que se orgulhava de minhas conquistas, sempre companheiro e atencioso.

Sem nunca dar um palpite na minha vida, foi sempre companheiro e conselheiro.

Agora ele se foi. Nesta semana, há quatro dias atrás, eu o vi sendo levado, cercado de filhos e netos, deixando um vazio e uma dor que nunca terão fim.

Não consigo imaginar como será a realidade do dia-a-dia sem ele, sem seu apoio, seu sorriso, suas observações.

E, frágil e me sentindo abandonada, tenho medo dos rios que ainda atravessarei. Então, voltando a ser apenas aquela criança indefesa, eu peço – “pai, por favor, pega na minha mão em todas as pinguelas que eu tiver de atravessar, está escurecendo na minha vida”.”

Um ano sem meu pai

Um ano, meu pai, que o senhor partiu.

O coração avisou. Quis ir logo cedo para me despedir. Quando estava a caminho, recebi o chamado “venha logo”. Só desliguei. Nada perguntei. Não era preciso. Eu já sabia.

Restou-me a despedida do final da tarde da véspera.

E todas as despedidas que tivemos nesses mais de sessenta anos. “Tchau, pai, estou indo”. “Vai, filha. Deus te abençoe. Avise sua mãe quando chegar… “. Ah, pai, que saudade de ouvir novamente sua bênção.

E mais saudade ainda dos encontros. Seus lindos olhos verdes sorriam quando eu chegava. Mesmo no fim, já adoentado, mostrava a alegria ao me ver. “Oi, pai, tudo bem?” “Melhor agora que você está aqui…”

Sem um gemido, uma reclamação, com paciência e mansidão o senhor foi aceitando toda a provação que a vida mandou. Sempre tranquilo, leve, em sua fé inabalável nas palavras de Cristo. E nos amou até o final.

23 de maio. Um ano, pai, de sua partida. 23 de maio, o dia que não acabou. Amanheci sua filha, passei a noite no seu velório. E o deixei, sozinho, naquele túmulo no dia 24. Sentindo uma dor intensa, uma terrível sensação de ingratidão que me persegue.

Nossa família é grande. Enorme para os padrões atuais. E era seu sonho, seu desejo. E sempre havia alguém a seu lado – na sala, na varanda, no escritório, no quintal, no carro, na padaria, na feira… era minha mãe, era um filho, era um neto ou um bisneto. Mas sempre havia um de nós a seu lado. Porque sempre foi o que senhor quis assim – não era homem de preferir ficar sozinho, apartado da família.

Mas naquela manhã, pai, deixamos o senhor sozinho. Isso doeu, ainda dói e doerá em minha alma todos os dias da minha vida.

Como eu gostava de sua companhia! Quando saíamos de carro para mil tarefas, o senhor dirigindo daquela forma mais-que-perfeita. E conversávamos… Nossas caminhadas na areia da praia… nossas noites nas varandas de nossas casas… Todos os whiskies que juntos tomamos. E nosso sagrado chopp…

Quando nós ainda éramos crianças, viajámos muito, todos juntos. O senhor nos distraia com ensinamentos – tínhamos de saber o que estava plantado nas propriedades ao longo da estrada. Fomos aprendendo ver a diferença de forma, tom de verde e tamanho das folhas. E aprendendo. Milho. Feijão. Soja. Batata. Algodão… e sua lavoura de algodão, quando tudo se cobria de branco, lembra-se como era lindo, pai?

Quantas lembranças que me sustentaram nesse ano de sua partida… no primeiro dia não entendi o que significava isso.

Porque só ao acordar na manhã do dia seguinte eu entendi que agora eu era uma órfã. E senti a dor insuportável de não ter pai, do luto pelo pai. Eu me deitara filha e amanhecera órfã.

A perda do pai divide nossa vida em duas fases. Antes, com ele a nosso lado. E depois, a orfandade irremediável.

Como se nossa vida recomeçasse do ponto zero. Dia dos pais – o primeiro dia dos pais sem pai. Sempre tivemos nossas reuniões para comemorar esse dia. Mesmo que não pudessem os seis filhos e suas famílias ir para sua casa, por residirem “esparramados” pelo Estado, alguns se organizavam e ali estavam. Mas havia alegre comemoração.

O primeiro casamento na família sem sua presença. Para abençoar Lucas e Raquel. Uma cerimônia lindíssima na Igreja. E o senhor não estava lá presente. Sei que acompanhou tudo, um dia tão importante na vida de um neto muito amado. E na festa, com sua família, cunhados, sobrinhos e filhos, e tantos amigos queridos, por mais alegria que houvesse, eu só conseguia enxergar sua ausência. Primeira festa sem meu pai.

E veio o primeiro Natal. E a primeira “passagem de ano” como o senhor dizia. E no meu aniversário eu não recebi seu telefonema, em mais de sessenta anos, pela primeira vez, não tive seu abraço – real nem virtual.

Seu primeiro aniversário! Como foi triste enfrentar o dia do aniversário do meu pai sem ele. Em nosso calendário anual nós tínhamos os feriados cívicos, os dias santos e o aniversário do meu pai – um dia sagrado.

O senhor esperava esse dia ansiosamente, pois adorava comemorar seu aniversário. E os seis filhos trouxeram seis noras e genros. E quatorze netos. E, através desses netos, vieram dois maridos-netos e uma esposa-neta, hoje já são duas. E oito bisnetos (agora, um ano depois, já são dez – chegaram Lorenzo e Lucas e no final do ano teremos mais um bebezinho, do Lucas, que já está na forma). E todos se reuniam no dia 15 de janeiro, religiosamente, para a comemoração.

Mais seus irmãos e sobrinhos. Sempre foi uma data marcante na família. Pois é, pai, tivemos nosso primeiro seu aniversário sem o senhor… muito triste.

E assim novas datas vão mostrando o vazio que o senhor deixou. E sentimos pela primeira vez essa dor de sua ausência.

Sei que o senhor apenas partiu antes para preparar nossa mesa na casa do Pai, onde todos estaremos novamente reunidos um dia.

Mas enquanto isso, o sofrimento pela sua partida dói. Pesa. Como se Deus, quando o chamou, tivesse colocado em meus ombros um fardo de mais de 100 kg. Para eu carregar para sempre, levar comigo onde eu for.

Não para levar para um lugar determinado, entregar em um armazém, deixar em uma calçada qualquer. Mas para levar comigo, até o final de minha vida, sentindo o peso e a dor de ser órfã, carregando o fardo pesado de sua falta.

Porque essa falta não é leve. Orfandade dói, sangra e pesa. É intensa, uma saudade imensa que fere.

Carrego, agora, em mim, a dor e o peso de sua ausência.

No dia do abraço

Galeria de artes visuais

Hoje é dia do abraço.

Um ano se passou desde que descobri, surpresa, que havia no calendário da internet esse “dia do abraço”.

E repito: nada há melhor que um abraço de verdade.

Não damos “um abraço”. Damos nossos braços, que fazem os corpos se encontrarem, se unirem, se fundirem, num amalgamar perfeito de ternura e paz.

Os corações, assim tão próximos, batem juntos num mesmo compasso. Uma acolhida incondicional – o verdadeiro sentido do “Vem!”.

Um abraço que envolve e emociona. Dado de corpo e alma. Aconchego e segurança. Não é sempre que temos alguém que nos abrace assim. E muitas vezes sonhamos com um abraço que acreditamos nunca irá acontecer.

Mas de repente esse abraço nos surpreende, somos enlaçados, abraçados, apresados. E então, felizes nós nos entregamos.

E esse abraço pode mudar completamente o rumo de nossa vida, a nossa até então apagada existência.

Porque esse abraço… ah, esse abraço… era tudo o que queríamos nesta vida.

Saudades



Sinto saudades de tudo que marcou a minha vida.
Quando vejo retratos, quando sinto cheiros,
quando escuto uma voz, quando me lembro do passado,
eu sinto saudades…

Sinto saudades de amigos que nunca mais vi,
de pessoas com quem não mais falei ou cruzei…

Sinto saudades da minha infância,
do meu primeiro amor, do meu segundo, do terceiro,
do penúltimo e daqueles que ainda vou ter, se Deus quiser…

Sinto saudades do presente,
que não aproveitei de todo,
lembrando do passado
e apostando no futuro…

Sinto saudades do futuro,
que se idealizado,
provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser…

Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei!
De quem disse que viria
e nem apareceu;
de quem apareceu correndo,
sem me conhecer direito,
de quem nunca vou ter a oportunidade de conhecer.

Sinto saudades dos que se foram e de quem não me despedi direito!

Daqueles que não tiveram
como me dizer adeus;
de gente que passou na calçada contrária da minha vida
e que só enxerguei de vislumbre!

Sinto saudades de coisas que tive
e de outras que não tive
mas quis muito ter!

Sinto saudades de coisas
que nem sei se existiram.

Sinto saudades de coisas sérias,
de coisas hilariantes,
de casos, de experiências…

Sinto saudades do cachorrinho que eu tive um dia
e que me amava fielmente, como só os cães são capazes de fazer!

Sinto saudades dos livros que li e que me fizeram viajar!

Sinto saudades dos discos que ouvi e que me fizeram sonhar,

Sinto saudades das coisas que vivi
e das que deixei passar,
sem curtir na totalidade.

Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o que…
não sei onde…
para resgatar alguma coisa que nem sei o que é e nem onde perdi…

Vejo o mundo girando e penso que poderia estar sentindo saudades
Em japonês, em russo,
em italiano, em inglês…
mas que minha saudade,
por eu ter nascido no Brasil,
só fala português, embora, lá no fundo, possa ser poliglota.

Aliás, dizem que costuma-se usar sempre a língua pátria,
espontaneamente quando
estamos desesperados…
para contar dinheiro… fazer amor…
declarar sentimentos fortes…
seja lá em que lugar do mundo estejamos.

Eu acredito que um simples
“I miss you”
ou seja lá
como possamos traduzir saudade em outra língua,
nunca terá a mesma força e significado da nossa palavrinha.

Talvez não exprima corretamente
a imensa falta
que sentimos de coisas
ou pessoas queridas.

E é por isso que eu tenho mais saudades…
Porque encontrei uma palavra
para usar todas as vezes
em que sinto este aperto no peito,
meio nostálgico, meio gostoso,
mas que funciona melhor
do que um sinal vital
quando se quer falar de vida
e de sentimentos.

Ela é a prova inequívoca
de que somos sensíveis!
De que amamos muito
o que tivemos
e lamentamos as coisas boas
que perdemos ao longo da nossa existência…

(Nota: Embora a autoria seja normalmente atribuída a Clarice Lispector, na verdade o texto se trata de um híbrido, que combina elementos e excertos de Antônio Carlos Affonso dos Santos com outros, escritos por um autor desconhecido.)

Mar e Paixão

 

Escalando rochedos marítimos

Era um mar

Um grande e sereno mar

Um leve balanço

E uma imensidão

E era um rochedo

Ancorado no meio do mar

À espera de marinheiros incautos

Um porto ou um perigo?

Um descanso ou ameaça?

Um lugar para chegar

Ou de onde fugir?

E era um amor

Um grande e sereno amor

Uma promessa de calma

E uma esperança

E era uma paixão

Ancorada no meio da vida

À espera de amantes incautos

Um porto ou um perigo?

Um descanso ou ameaça?

Um lugar para chegar

Ou de onde fugir?

 

(Poesia classificado em 2º lugar no CONCURSO LITERÁRIO VIRTUAL RELÂMPAGO AJEB-RJ/ 2020)