Angelita di Anzio

 

Conta-se – não se sabe se lenda ou verdade – a estória de uma menina de cinco anos encontrada chorando numa praia no Lazio, quando do desembarque dos Aliados, já no fim da Segunda Guerra.

Segundo se sabe por estórias contadas no local, ela foi encontrada pelo soldado escocês Royal Scots,  fuzileiro, e alguns dos seus camaradas, talvez mesmo por alguns soldados brasileiros.

Levaram a criança da praia, onde estava sozinha, e tentaram encontrar sua família ou descobrir alguma coisa, mas nada conseguiram, deram-lhe o nome de Angelita e a confiaram a uma enfermeira. Dias depois ambas – Angelita e a enfermeira – morreriam durante um bombardeio.

A estória se popularizou e a cidade de Anzio, onde se deram os fatos, resolveu construir um monumento à menina, que foi feita pelo escultor Sergio Cappellini, inaugurado em 22 de janeiro de 1979 (Dia Mundial da Criança), onde se vê a garota cercada por gaivotas.

Poetas

Não morre aquele que deixou na terra a melodia de seu cântico na música de seus versos. (Cora Coralina)

 

O que faz de um ser humano um poeta?

A tristeza? As adversidades? As dores dos amores não vividos ou não correspondidos?

O que desperta esse ser poeta?

A beleza? O amor? A natureza?

Já dizia o Poeta (poeta, só o Poeta, assim, com artigo definido e letra maiúscula é Vinicius de Morais) que ninguém é poeta por saber rimar…

E não é mesmo. Para fazer rima basta um dicionário.

Para ser poeta é preciso muito, muito mais…

Mais que um dicionário, um papel e um lápis.

Mais que um grande amor, muita paixão e a saudade doída da separação.

E um sentimento humano tão grande, tão maciço, que sufoca, não deixa respirar e faz chorar.

Pode ser que com tudo isso surja um poeta. Mas mesmo com tudo isso e ainda mais, muitos não se mostram poetas.

Não sabem ver a beleza da flor que virá quando olham um simples botão; nem prever o brilho das estrelas antes do anoitecer.

Não sabem ouvir a voz dos anjos nem o pranto não chorado dos que sofrem calados.

Não veem em cada ser à sua volta uma criação divina, à imagem e semelhança do Pai.

E, principalmente, não soltam os freios do próprio sentir, mantendo em cárcere privado o próprio amor, afundados em egoísmo.

Esses jamais serão poetas.

Porque poetas olham para a terra bruta e enxergam o jardim que poderia ser.

Olham a poça d’água e pensam na infinidade do mar. Olham para as pedras e sonham montanhas.

E, mais que tudo isso, vêem com os olhos do coração, o qual mantêm solto, sem freios nem rédeas, ao acaso da sorte e ao sabor das paixões.

Por isso vêem outro mundo na nossa realidade, e nos levam aos píncaros das emoções, despertam sensações indescritíveis, fazem-nos sentir a alma como as cordas retesadas de um violino.

A beleza de sua produção é diretamente proporcional ao sofrimento que experimentam. Porém alguns, em face de uma grande dor, num momento de ternura e raiva destroem toda sua produção e nunca mais escrevem. Muito triste quando isso acontece.

Na felicidade nada conseguem expressar.

Há poetas da vida, das palavras, dos sons, das cores… porque há poesia em tudo, em cada esquina, em cada parede, em cada face. É preciso ter olhos especiais de poeta para enxergar.

E para quem não enxerga, há os poetas, que podem ver e traduzem a todos a beleza e a dor que veem e que sentem.

Por isso são imortais, centenas de anos se passam, mas a poesia é presente, é viva e não morre jamais.

Abençoados sejam os poetas.

(obs. – escrito aos 18/04/09 , antes de me descobrir ou de me assumir poeta…)

A dor da saudade

Carrego em mim todas as dores do mundo. As dores do corpo e as dores da alma.

Dores crônicas, agudas, lancinantes…

As dores físicas que já suportei levariam outras pessoas ao desatino.

Mas eu sempre aguento. Uma hora a dor vai passar, eu sei.

Difícil aguentar as dores da alma. Doem mais do que prender o dedo na porta, do que cólica de rins, ou quebrar a perna…

Dentre elas as piores são as dores da indiferença e da saudade.

O contrário do amor não é o ódio. Ambos são sentimentos fortes e motivantes. O verdadeiro contrário do amor é a indiferença. Que machuca, marca fundo na alma. Dói intensamente. E não passa.

E a dor da saudade?

Abrir os braços para o vazio e abraçar a ausência de quem se foi?

Voar sozinho em seus sonhos porque o outro desistiu de voar com você?

Acordar de madrugada e não ter mais aquele alguém a seu lado, mas somente o frio e o nada?

Isso é saudade. Isso dói lancinante. De dar vontade de desistir de tudo e morrer. Essa dor eu não aguento. Ela não passa, jamais.

Saudade é tudo o que não há. É o nada. É o vazio. O buraco escuro onde nos debatemos sem a menor possibilidade de sair.

Saudade é a dor conjunta de todas as partes do corpo. Porque dói a alma, dói nossa essência, dói nossa vontade de continuar vivendo.

É sentir o toque de quem já se foi, ouvir a voz que não fala mais, sonhar o impossível que não acontecerá.

É mais que solidão. Porque solidão não é falta. E saudade é feita apenas de ausência.

Saudade é a presença da ausência que nos acompanha constantemente.

É lanhar-se em pedras quentes para sentir outra dor maior, bater a cabeça nas rochas para parar de pensar na falta de uma presença.

São lágrimas sem fim, bálsamo do coração, que aliviam a dor da alma.

Sentir saudade é sofrer. Beber até a última gota do cálice do sofrimento atroz. E doer e doer e doer. Dia e noite. Como um mecanismo que não cessa de rodar e moer a dor e despejá-la sobre nós.

Saudade é o não saber do outro, que não está mais perto, que não dá notícias… não saber se está bem, se pensa em nós, se está longe por amar outra pessoa ou por mero orgulho…

Saudade é tristeza, é querer voltar no tempo por um instante ao menos e sentir a felicidade que a causou. E quanto mais se lembra, mais saudade se sente e mais se sofre, como em uma espiral infinita de pensamentos e sentimentos.

Tenho saudade, sim. Muita saudade.

E muita dor.

Amigos

One day in your life when you find that you’ve always waiting
For the love we used to share, just call my name, and I’ll be there
(Don Eliot)

 

O que é um amigo? São tantas as respostas que nós nos sentimos perdidos na hora de definir amigo.

Algumas definições – clássicas nesse mundo do descartável – são hilárias, outras, sentimentais e outras ainda parecem verdadeiras.

… amigo não é o que separa a briga, mas o que chega do seu lado dando voadora no agressor…

…amigo não é aquele que impede seu pranto, mas o que enxuga sua lágrima…

…amigo não é a sombra, que só te acompanha enquanto o sol brilha…

Fui e sou pessoa de poucos amigos. Não sei bem o porquê.

Em criança preferia os livros às brincadeiras – por volta de cinco anos de idade os adultos descobriram que eu já sabia ler – ninguém me ensinara, mas eu lia, e, curiosamente, não sabia ainda escrever porque não fora alfabetizada, mas sabia ler. Ler não me magoava. Ler não me feria.

As outras crianças em geral eram más – mesmo quando entrei na escola, não tinha amigos. Resultado: hoje sei que fui uma criança solitária, e por isso mesmo gosto da solidão, me sinto bem comigo mesma.

Sempre tive a companhia dos irmãos e primos, família numerosa, à moda antiga, unida e amorosa. Para que precisaria de estranhos?

Muitas pessoas não conseguem manter amizade com os próprios irmãos, e se desmancham em amizades com estranhos. Não entendo isso.

Mas, ao longo dos anos, obrigada à convivência social, fiz alguns amigos, além das relações familiares.

E vejo que amizade não é algo que se põe na balança, que se mede em centímetros… não adianta porque a conta não bate – sempre alguém dá mais, cede mais, se doa mais…

Mas é bom ter amigos, ainda que não sejam tão amigos, mas sejam mais que simples conhecidos ou colegas de trabalho.

Se algum, por uns momentos, se dispõe a pegar a outra alça da nossa sacola da vida, já torna momentaneamente mais leve nosso caminhar.

Os encontros, as conversas descompromissadas, a convivência alegre e despreocupada da relação volátil, isso é tempero de viver.

Alguns amigos são tão passageiros que sequer marcam nossa existência, nem sei se podemos denominá-los amigos, ainda que frequentem nossa casa e se façam muito presentes por um breve tempo. Mas nada trazem, não somam, não acrescentam.

Outros, porém, se tornam parte de nossa existência, e ainda que fiquemos muito tempo sem encontrá-los, quando temos a sorte e a felicidade de um reencontro, a conversa flui leve, a distância não existe e o tempo de separação não interferiu no carinho mútuo. Esses eu acredito que são os verdadeiros amigos. Mesmo distantes estão, de alguma forma, a nosso lado.

Concluo, então: amigo é o que ficou quando todos já se foram, sejam os amigos/irmãos de sangue ou de vida.

No escuro

Hoje está difícil. Depois de uma mais-que-típica segunda-feira, com direito a DOIS períodos de espera em consultórios médicos, para agravar a situação, agora estamos no escuro. Breu total.

Daí a dificuldade, reverter a conexão do computador para bluetooth e usar o celular como roteador pelo acesso pessoal. Mas não ficarei sem postar por causa de uma dificuldade qualquer.

Para quem não sabe,em parte do meu tempo, eu moro em uma cidade chamada Ribeirão Preto. A porta do inferno de calor.

Aqui só há duas estações no ano, bem definidas: verão e inferno. Atualmente estamos no verão. Daqui uns quarenta dias começará o inferno.

Bem, agora no começo da noite, começou a chover. E, como sempre quando chove nestas cidadezinhas de interior, acabou a energia elétrica. Nunca morei em nenhum lugar (e olhe que já me mudei 23 vezes de cidade) – em que tivesse tanto problema de energia. Progresso à moda ribeirão-pretana, tipo rabo de cavalo – cresce para baixo. E não é tempestade nem chuva de verdade. Garoão desgraçado e raios.

Uma chuvinha que está aumentando a sensação de estufa e afastou qualquer possibilidade de vento. Estou derretendo. Detesto calor. Se não estivesse caindo tanto raio, colocaria uma chaise na prainha da piscina e iria dormir dentro da água.

Mas, por coincidência, formatei e editei um conto hoje – O causo da grande noite.

É uma batalha entre a noite e a escuridão. Gosto da noite. Da quietude e da solidão confortáveis que só a noite me traz.

Gosto do escuro. Há uma vela no chão, lá no canto do quarto, porque meu marido não é adepto da escuridão. Mas eu sou. Tenho olhos de gato e enxergo no escuro. Não preciso de luzes.

Agora só espero que com tanta tecnologia, um discípulo de São Carrier invente um ar-condicionado com bateria solar. Porque ou eu digito ou uso a mão para me abanar com um leque…