Vivências

Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante. (Saint Exupéry)

Há dias ensolarados que nos parecem sombrios. E dias chuvosos que nos parecem ensolarados.

Os sentimentos dizem muito mais que a própria meteorologia. É a alegria, é a felicidade, o que realmente importa.

Nunca alguém reclamou que teve um dia de chuva em Paris ou em Milão.

Para mim, em especial, se estou na praia – bem acompanhada, frise-se – pode chover à vontade que não importa.

E muitas vezes, em casa, há um sol que objetivamente é maravilhoso, mas continuo com frio e no escuro.

Daí procuro e vejo que tanto o frio quanto o escuro estão dentro de mim, da insatisfação que estou sentindo, da vontade louca de estar em outro lugar…

E sei que a vida se assemelha a uma moeda: tem os dois lados, indissociáveis, para termos o valor temos que ter o verso dele – é cara e coroa em tudo.

O pior é saber que nossas escolhas muitas vezes nos traem e conseguimos exatamente o que buscávamos, mas vemos que buscávamos não o que queríamos.

Antes da escolha é preciso estar bem certo se estamos buscando o que queremos, porque depois que alcançamos o buscado, é com ele que conviveremos sem alternativa.

Há algumas fases da vida que nos põem em confronto com o que temos, o que queremos e o que deveríamos ter e querer.

É terrível chegar no topo da montanha errada.

 

 

Considerações sobre o nada

Escrevi esse texto em 14.04.2010. Mas continua tão atual que merece ser publicado hoje, aqui:

 

Aventurar-se causa ansiedade, mas deixar de arriscar-se é perder a si mesmo. SørenKierkegaard

 

Não se trata de niilismo, não estou em fase Nietzsche, Weber, Heidegger, Sartre ou Camus.

Apenas quero não-pensar. E o nada pode ser instigante, pode ser um desafio. Não é sobre esse nada que penso hoje – é simplesmente sobre o nada nada.

Depois de uma semana que se pode dizer terribilis – com direito a doenças, internações, coma, piora, morte, melhora etc. tudo com membros da família, sinto-me como um barco que enfrentou águas revoltas à noite e agora, ao amanhecer, encontra mar calmo e céu azul…

Terremoto na China, hoje. São tantos terremotos nos últimos tempos que já acostumamos com a idéia e não nos sentimos chocados com a tragédia alheia. Isso não é bom sinal.

A chuva fez muitas vítimas e muito estrago no Rio. Como fizera no ano passado em Santa Catarina. E tantas catástrofes são imputadas ao tempo, ao clima, OK. Mas pergunto, e o Morro do Bumba? Acho que o tempo não tem nada a ver com isso. A chuva só adiantou a tragédia, porque se o gás metano que ali havia explodisse seria um incêndio de proporções dantescas. E o poder público, que, mesmo avisado, fez ruas e benfeitorias sobre uma bomba que mais cedo ou mais tarde seria uma tragédia???? É brincar com a vida alheia.

Usei acima o termo dantesco indicando algo horrível, maléfico. Pergunto-me o porquê.

Em geral falamos dantesco sobre algo muito, muito, intensamente ruim, como se a obra de Dante se resumisse ao inferno.

Esse inferno descrito por Dante que tomou conta do imaginário popular serve de modelo para todos os infernos descritos na era pós-Dante.

Até no filme Amor Além da Vida eu vi o inferno ali mostrado como se fosse inspirado em Dante (talvez tenha sido mesmo, não tive a curiosidade de ir pesquisar).

É claro que o diabo inspira mais medo que Deus ao povo em geral, e sempre nos lembramos mais do que tememos, detestamos ou desprezamos do que daquilo que queremos desejamos ou amamos.

Mas ficar usando o termo dantesco para o horrível reduz a obra do grande poeta a uma parte ínfima.

Mesmo porque na mesma obra há o paraíso dantesco, o poeta fica face a face com Deus…

E mais, a belíssima, poética e agradável língua italiana moderna pode ser considerada italiano dantesco, uma vez que construída – para a unificação da Itália, sobre a obra de Dante, que a escreveu não em latim, como era comum aos poetas de então, mas em um italiano castiço, porque considerava pernóstico o uso do latim…

Mas, mudando de assunto:

Descobriram a pólvora e inventaram a roda esta semana: cientistas afirmam que estresse e ansiedade estão ligados à depressão. Oh, que novidade!!!!

Jornais publicam que comandante de igreja evangélica impõe meta de arrecadação mesmo durante a crise e ensina seus subordinados como conseguirem o aumento das “doações”. Oh, outra novidade!!!!!

Nos mundos artístico e esportivo continuam as cirandas de noivados e casamentos desfeitos. Esses casais entendem muito de separação, de casamento não entendem nada.

E assim os jornais, quando não têm assunto, começam a publicar esses nadas. Exatamente o que eu fiz hoje por aqui.

 

Alma cativa

O homem é uma prisão em que a alma permanece livre. (Victor Hugo)

 

Uma alma aprisionada sonha com a liberdade de ir. Ir a qualquer lugar, perto, longe, outro país, outro planeta.

Mas ir.

Porque às vezes se chega a um ponto que não dá mais para ficar.

E a alma, livre por natureza e vocação, sofre com as grades que a cercam que a limitam, que a aprisionam.

Aprisionada ela não é mais alma, como um pássaro cativo que perde sua natureza de pássaro e canta de desespero e não de alegria.

Ir a lugares novos, nunca vistos nem visitados, desde a alma de outras pessoas até outros mundos bem distantes.

E voltar aos lugares onde viu a felicidade, onde encontrou o prazer. Rever lugares onde nunca esteve, mas sonhou e sabe que existe.

Ir novamente às melhores paisagens, aos mais caros rincões cuja existência ninguém mais conhece, mas que por ter estado lá nunca pode esquecer.

Voltar a um momento tão distante, tão passado, tão fugaz, mas que ficou vivo na alma como brasa na carne.

E assim, presa, sonha com a liberdade que também nunca teve. Triste sina das almas que não são livres.

Triste vida das pessoas que se deixam aprisionar.

Poesia da casa – Minhas dores

As minhas dores são tantas…

São dores que estão seladas:

As dores do corpo são chagas,

Da alma são mágoas passadas.

 

Diante da dor sinto medo

Mas me mantenho serena;

A dor me torna tão frágil,

O medo me faz tão pequena.

 

Sempre juntas nessa vida,

Das dores não me separo,

Assim eu vou caminhando:

 

Com minhas dores vivendo,

Eu, minhas dores cantando,

Em mim, minhas dores doendo…

Pressa

Hoje, apressada, vou postar um poema de Ronaldo Cunha Lima. Todos sabem que foi político paraibano. Mas, além de político, foi advogado, promotor de justiça, professor e um grande poeta:

Quando meus filhos disserem a meus netos

o quanto eu os amava

e quando meus netos disserem a meus filhos

que  guardam lembranças minhas

e de mim sentem saudade,

não terei morrido nunca,

serei eternidade.

 

E ainda:

 

Eu amo uma mulher que não existe.
Mas a vejo sempre,
conversamos muito
e lhe quero bem.
Tem muitas faces,
não sei seu nome
e, se nome tem.
Só sei que quando
eu estou triste,
ela então existe
e de repente vem
confortar-me a alma,
trazer-me calma
e me fazer bem.
E a quem me indaga:
– Que forma vaga
de amar alguém?
Eu nada escondo
e então respondo
como convém:
– É meu coração,
na solidão,
sem ter ninguém.