Saudade

Saudade … ecos do passado

Ouvir a voz de quem já não está

Sentir os braços que já não abraçam

Buscar uma presença na ausência

Aquecer com o frio e se queimar

Morrer por dentro e querer viver

Viver doendo e querer morrer

Tudo é finito, como o é a própria vida

E chega o momento em que desmorona

Nada do que era ainda existe

Sons desconhecidos, outras luzes

O momento em que devemos

Desmontar a paixão e recolher

As flores que deixamos nos caminhos

Guardar tantos sonhos e desfazer os planos

Abafar as brasas ainda vivas que teimam

Em inundar de encanto um coração

E então cuidadosamente espalhar sobre elas

As cinzas frias do esquecimento 

No espelho, o tempo

 

Quando não mais reconheceu os olhos da mulher que do espelho a olhava, entendeu que o tempo passara, a juventude se fora. 

Viu os cabelos embranquecidos moldando um rosto no qual o tempo – essa fábrica de monstros – desenhara riscos, as lágrimas e angústias colocaram sulcos, com seus contornos perdidos ao longo do caminho por onde viera, mas que não poderia recuperar. 

Viu as sombras em seus olhos deixadas pelo pranto, pelo desespero, pelas dores que colhera ao longo da vida, mesmo sem ter plantado. 

Tentou ver alguma coisa de outros tempos, um viço da juventude, um sopro dos sonhos realizados, mas o rosto duro e tristonho nada lhe mostrou. 

Queria enxergar no espelho o passado que se fora, o rosto perfeito que tivera um dia, a beleza que o tempo lhe roubara. Mas não conseguiu ver. 

Apenas viu a máscara que ainda é usada para flutuar no mundo que não mais lhe pertence, para se fazer aceita entre os viventes. 

E notou, resignada, que já não mais estava viva. Apenas ainda estava deste lado do espelho esperando a mão da morte alcançá-la. 

E pensou na ventura de se morrer jovem, antes que o tempo mostre sua força implacável. 

E pensou na ventura de se viver muito, deixando que o tempo lhe mostrasse a continuidade da vida nesta terra.

Envergonhada e silenciosamente fez uma prece agradecendo a velhice que evitara a partida precoce…

Les feuilles mortes ne se ramassent pas…

Essa frase tem uma sonoridade outonal fabulosa – como se fosse um início de depressão, uma nostalgia infinda, um toque sutil de um sofrimento indefinido.

No entanto, nada mais é que uma constatação da natureza, observação de agrônomo: Não se ajuntam as folhas mortas.

E por que?

Porque muitas folhas, quando caem e forram o chão passam a exercer papel importante no enriquecimento do substrato local, por isso devem ser deixadas ali, onde tombam, ainda que os ventos carreguem parte delas. Mas as que ficam, estas não devem ser juntadas.

Isso foi tirado de um artigo publicado por Alain Lompech no Le Monde, que dizia:  Les hibiscus mauves perdent déjà leurs feuilles qui s’amoncellent sur la pelouse. La tondeuse les ramassera. Mais celles qui tombent ao pied de cet arbuste resteront là où elles sont. Elles se décomposeront su place et enrichiront la terre en surface. Em attendant, elles sont d’um bien beau jaune. …. Elles protégeront du froid les Begonia evansiana qui poussent ao pied de la glycine. …

É a poesia da natureza por si mesma: as folhas caem porque é outono. Forram o chão cobrindo a terra. Que prazer caminhar sobre folhas mortas, seu som, seu cheiro…

 

O vento as leva, as ajunta, mas arbustos prendem algumas e as seguram a seus pés. E essas lhe servirão de cobertor, protegerão do frio intenso. E se decomporão no local, enriquecendo a terra que as acolheu.

E assim tudo se renova.

E nós, o que fazemos quando chegamos ao outono de nossa vida?

Caímos, porque o inverno da velhice não perdoa os que sobrevivem…

E somos varridos e ajuntados ou servimos de proteção, fonte de calor e nutrientes para aqueles que vêm depois de nós?

A escolha depende de cada um, não quando chega ao outono pessoal, mas na construção de sua vida.

Há pessoas que seguramos conosco, queremos que continuem ali, como guias, fonte de amor, de calor. Outras preferimos que as tempestades varram e ajuntem bem longe de nós.

Temos que tentar ser para os outros – arbustos novos que vêm depois, nosso futuro – as folhas a serem agarradas, valorizadas e não o lixo que é levado pela tempestade da vida.

E temos também que agarrar e segurar junto de nós as folhas das quais dependemos para ter um pouco de calor quando nosso inverno chegar, reconhecer e valorizar essas folhas tombadas de rara beleza em seu amarelo de outono.

A poesia da chuva

Sim, há poesia na chuva. A água que docemente cai do céu, limpa o ar, renova a vida.

Há poesia na chuva. Que cai em gotas como se fosse o pranto celestial por essa humanidade ingrata e violenta.

Há a poesia de um guarda-chuva unindo dois corpos que caminham pelas calçadas da cidade, sem pressa, sem preocupação, celebrando o amor.

Há poesia no corpo preguiçoso, que escolhe a tarde de chuva para ficar na rede da varanda, vendo os pingos correrem pelos telhados, ouvindo o doce murmúrio nas calhas e condutores.

Há poesia no canto dos pássaros que celebram a chuva e ávidos esperam que ela acabe para buscarem os bichinhos que surgirão nos gramados.

Há poesia no barulho gostoso e ritmado das gotas nas janelas.

Há poesia no cheiro da chuva que invade as narinas e nos remete a verões antigos, cozinhas toscas, fornos de lenha.

Há, ainda, poesia na chuva, que deixa, atrás de si, o radioso rastro de um lindo arco-íris…

Chopin, meu ídolo

Aprendi amar a música erudita em meus anos de conservatório. 

Tenho fases, e em cada uma elejo um compositor preferido para ouvir. Cada um tem sua magia, sua perfeição, sua característica marcante. 

Mas há um cuja música me eleva, tira-me do chão, deixa-me em alfa e em êxtase: Frederic Chopin.       

Para mim sua música é completa, é linguagem angelical, é força, é beleza. Indescritível.

Tenho que a Fantasia Improviso é a música mais bonita já ouvida por um ser humano. Nenhuma outra a supera, nenhuma outra a alcança. 

A força mágica que emana desta melodia é simplesmente a elevação da alma. 

Ouça-a calmamente, na penumbra, olhos fechados e se deixe levar pelas frases perfeitas da música de Chopin. Você sentirá que saiu de seu corpo, que sua alma levitou por lugares desconhecidos e fabulosos. Uma experiência para jamais esquecer. 

Dentre as  Polonnaises é a “Heroïque” que considero a nº 01, com seu protesto contra o que se passava na distante pátria, o sofrimento de um povo subjugado integralmente traduzido em uma melodia cuja força atravessou as fronteiras e os séculos. Daí sua inegável perfeição. A “Military” também é linda, superior a 98% das composições existentes. 

E os Nocturnos? Ah, os Nocturnos de Chopin, que melodias inigualáveis, sussurros dos anjos em nossos ouvidos… as Waltzs…. as Sonatas… 

E a incomparável Marcha Fúnebre. Traz em si o peso da dor de uma despedida tanto inevitável quanto irreversível. Chora por si. 

Não viveu muito o Chopin – a tuberculose, mal do século à época, o levou, como a tantos artistas de então. 

Até essa morte se cobre de uma aura especial, que só vemos nos poetas e compositores que morreram de tal moléstia. 

Uma vida curta, não muito feliz, atormentada, longe da família, dividido entre a fama – Paris – e a pátria/família – Polônia, até depois da morte. 

Estive no nº 12 da Place Vendôme, onde ele morreu – na época ali funcionava a embaixada da Polônia.

Visitei seu túmulo no Père Lachaise em Paris.

 

Aqui foi enterrado seu corpo, mas não seu coração – extraído, furtado e clandestinamente levado por sua irmã para a Polônia, onde foi emparedado na nave da Igreja de Santa Cruz em Varsóvia.

 

Um dia ainda visitarei seu coração também – levarei o meu para bater próximo do seu.

 

Dia de poesia – Silvana Duboc – Me encante

Trago, hoje, a poesia de Silvana Duboc, que tanto me encantou:

Me encante com uma certa calma
Me encante da maneira que você quiser, como você souber.
Me encante, para que eu possa me dar…

Me encante nos mínimos detalhes.
Saiba me sorrir: aquele sorriso malicioso,
Gostoso, inocente e carente.

Me encante com suas mãos,
Gesticule quando for preciso.
Me toque, quero correr esse risco.

Me acarinhe se quiser…
Vou fingir que não entendo,
Que nem queria esse momento.

Me encante com seus olhos…
Me olhe profundo, mas só por um segundo.
Depois desvie o seu olhar.
Como se o meu olhar,
Não tivesse conseguido te encantar…

E então, volte a me fitar.
Tão profundamente, que eu fique perdido.
Sem saber o que falar…

Me encante com suas palavras…
Me fale dos seus sonhos, dos seus prazeres.
Me conte segredos, sem medos,
E depois me diga o quanto te encantei.

Me encante com serenidade…
Mas não se esqueça também,
Que tem que ser com simplicidade,
Não pode haver maldade.

Me encante com uma certa calma,
Sem pressa. Tente entender a minha alma.

Me encante como você fez com a sua primeira namorada…
Sem subterfúgios, sem cálculos, sem dúvidas, com certeza.

Me encante na calada da madrugada,
Na luz do sol ou em baixo da chuva….

Me encante sem dizer nada, ou até dizendo tudo.
Sorrindo ou chorando. Triste ou alegre…
Mas, me encante de verdade, com vontade…

Que depois, eu te confesso que me apaixonei,
E prometo te encantar por todos os dias…
Pelo resto das nossas vidas!!!”.
(Silvana Duboc)