Quarta-feira de cinzas

Tentou não se olhar no espelho.

                               Quando entrou na avenida, a maquiagem reluzia, o traje brilhava, seus olhos estavam iluminados e seu sorriso irradiava felicidade. Apenas representava seu papel. Eram cinco anos em que desfilava na mesma escola de samba, como destaque de uma ala.

                               Agora, em casa, não enxergava a passista habilidosa e sensual. A mulher que todos admiravam na avenida. Era apenas ela mesma, de volta a seu buraco de viver.

……………………………

                               Todos os dias se levanta enquanto ainda não amanheceu. Tem a casa para cuidar, roupas para lavar/passar, deixar comida pronta para os filhos almoçarem.

                               Ainda escuro chega no ponto. Espera duas, três, até quatro conduções passarem para conseguir entrar e seguir até o ponto onde pega outro ônibus. Às 6h45 está entrando no emprego.

                               A patroa sai cedo e ela precisa chegar antes que as crianças acordem. E segue o dia entre mil afazeres. A sorte é que ela ama as crianças da patroa como se fossem seus filhos. Mas sai a cada dia, ou melhor, a cada noite, mais cansada. E a volta para casa é outra maratona.

                               Aí vem o carnaval.

                               E ela se transforma. A vida é sonho, beleza, luzes e aplausos.

                               Três meses de trabalho dedicado, bordando todas as noites e nos finais de semana.

                               A roupa tem de ser perfeita. Vestir a fantasia transforma sua triste vida em sonho.

                               Gosta quando a escola tem a pontuação alta, porque aí são dois desfiles. E, por duas noites, deixa para trás a tristeza, a pobreza, as privações e o cansaço.

                               E dança. Dança com os pés, dança com a alma. Seus olhos brilham mais que as pedrarias do vestido.

                               Mas agora, ao chegar em casa, a escola desclassificada, seu rosto encovado pelo cansaço, os pés queimando do tempo que permaneceu dançando… não sabe se chegou a hora de parar…

                               Vai limpando o rosto, tirando a maquiagem, já sem o arranjo da cabeça. Seus cabelos maltratados aparecem no espelho. Os olhos fundos, sem brilho…

                               Ao tirar o vestido algumas pedrinhas caem e rolam pelo chão. A fantasia vai se desfazendo aos poucos.

                               E ela enxerga a realidade por trás do carnaval. Nos oitenta minutos de avenida, ela brilha, ela encanta, torna-se rainha de seu reino. E conclui que oitenta minutos em um ano é muito pouco. Quase nada.

                               Entende que a vida é como o ano – o carnaval – tão breve – é a juventude. Cheio de música, alegria, muitas pessoas, encanto e fascínio, e ainda os sentimentos de poder e imortalidade. Depois, passada a quarta-feira de cinzas, só resta o trabalho enfadonho e cansativo. A vida sem lustro e sem glamour. Que se arrasta até o final. Porque o que passou não volta.

                               Os amores perdidos, os amigos mortos, as amizades desfeitas, nada mais voltará.

                               Vai arrancando as últimas pedras brilhantes do traje. Junta todas, e não as guarda para bordar a fantasia do ano próximo ano. Porque entende que, para si, acabou: não haverá mais alegria de carnaval. Joga-as no lixo, e, chorando, vai tomar um banho antes de – finalmente – poder dormir um pouco.

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