Dia de poesia – Carlos Drummond de Andrade – Amor e seu tempo

POEMAS DO AMOR DESESPERADO | Gaveta do Ivo

Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.

Vírus e vespa

Cientistas alertam sobre aparecimento de vespa gigante nos EUA

Há regiões do Brasil que não têm epidemia pelo novo coronavírus. Não está explicado se é por falta de imprensa suja, se é por política limpa ou se o calor, realmente, interfere na propagação do vírus.

A informação inicial do horror que aconteceu no norte da Itália foi devido, principalmente, ao frio inverno que o país enfrentava.

Aqui, era pleno verão. Os governadores que hoje quebram seus Estados com quarentenas inúteis afirmavam, em janeiro, e em fevereiro, que aqui a epidemia não se espalharia. Por esse motivo mantiveram o calendário do lucrativo e contagiante carnaval.

E o verão acabou e o calor continuou.

De um lado, notícias alarmantes de milhares de mortos. E prefeito comprando milhares de caixões e mandando abrir centena de covas em cemitério.

De outro, informações dos cartórios de registro civil que o número de óbitos não se alterou de um ano para o outro. E surgem notícias de caixões vazios sendo enterrados para “tacar terror”  na população.

De um lado, notícias apavorantes de milhares de doentes, hospitais lotados, escolha de quem salvar e quem deixar morrer.

De outro, fotos de hospitais vazios e notícias de vagas em UTIs sub-ocupadas.

Difícil acreditar em qualquer dos dois lados. O melhor é dividir tudo por 04 e acreditar em parte em um, em parte em outro…

Mas sempre temos uma certeza: enquanto fizer calor, não estaremos tão vulneráveis como a população dos países frios.

Aqui onde estou cumprindo minha quarentena temos duas estações no ano. Apenas duas, e bem definidas: verão e inferno. Atualmente está começando o verão. O inferno acabou, por ora.

Outra piadinha local é que aqui o inverno dura de 3 a 4 horas/ano.

Por isso, respiramos aliviados. Calor o ano todo.

Mas…

Esse Mas vem sempre para obrigar dar marcha-a-ré, estragar o dia, perturbar a paz… talvez devêssemos fazer uma campanha para excluir o Mas da língua portuguesa.

Pois é, MAS

A china, depois do vírus, resolveu mandar a vespa mandarina para o continente americano.

A terrível vespa assassina. A vespa gigante. Coisa de filme de terror. Não perde o ferrão quando pica, o que permite que uma mesma vespa ataque várias vezes. E sua picada pode levar à morte por problemas renais.

E daí, você vai dizer… se o vírus não foi essa coca-cola toda aqui no Brasil, a vespa morre na entrada.

Não meu amigo. Essa veio de encomenda.

Para ocupar o lugar em que o vírus não conseguiu vingar.

A vespa precisa de calor…

Ferrou!

Retrato em branco e preto

Estava me preparando par a escrever o post de hoje, e começo ouvir essa música. Largo tudo, mergulho no passado, e não resisto: vou dividir com vocês. De Chico Buarque na interpretação de nossa estrela maior, Elis Regina

 

 

Já conheço os passos dessa estrada

Uma borboleta

Pour connaître la rose, quelqu’un emploie la géometrie et un autre emploie le papillon. (Paul Claudel)

 

Borboletas-monarca dispõem de “bússola interna” ~ Criacionismo

Voando leve e colorida, como se fosse  uma flor com asas, a graciosa borboleta pousa silenciosamente sobre uma folha.

Como pode essa maravilha etérea e cheia de esplendor ter sido, um dia, a feia e desengonçada lagarta, ou larva de borboleta… mistério da natureza.

Com olhos superpotentes – formados por 12.000 – doze mil! – partes minúsculas que permitem enxergar em 360 graus, e ainda seus dois pares de asas, esses magníficos insetos são movidos “a bateria solar”, uma vez que suas asas dependem da energia solar para voarem.

As borboletas são místicas. Depois do ciclo lagarta, vem o estágio da crisálida. Ali, sob a dura casca pendurada por fios, desenvolve-se a borboleta em almofada de seda.

Então a curiosa metamorfose acontece e surge a borboleta.

Todo esse caminho deve ser naturalmente percorrido. Se alguém, inadvertidamente, tenta apressar e abre o casulo, não haverá a borboleta. Ela só pode viver quando chegar seu exato momento.

E, uma vez livres, têm tantos significados para os humanos.

Quem assistiu ao filme “Suplício de uma saudade” jamais poderá avistar uma borboleta sem se lembrar das duas cenas que envolvem os protagonistas e as borboletas.

Para uns é sorte, para outros, o amor chegando, ou a felicidade, a fortuna…

E os pequenos bichinhos, pesando cerca de 1 grama, voam, indefesos e, aparentemente, ignorando o que os humanos pensam a seu respeito.

Não devem ser capturadas, e, se nascidas em cativeiro, perdem sua natureza.

Por exemplo, a magnífica borboleta monarca, que voa 5.000 km em sua migração anual do Canadá para o México, em busca de calor – criadas em cativeiro, perdem a capacidade da migração.

A liberdade é sua essência.

Eu as vejo como flores sem raízes, voando livres, felizes por terem atingido esse estágio na vida, depois de tanta feiura, clausura e sofrimento.

Ela entende minha admiração, alça voo, faz pequena reverência perto de mim, e voa em busca de seu destino.

Escrevinhar

Banco de imagens : céu, condor, pássaro, vôo, Cuba, nuvens, Ave de ...

Hoje estou com muita preguiça de escrever! Ofício ingrato este da escrevinhação! E dá trabalho!

Pense bem: temos 23 letras. Alguns sinais. Pontos e vírgulas.

E tenho de me virar só com isso para escrever contos, crônicas, livros, poesias… não é possível inovar.

E mais: só posso usar as palavras que os outros já inventaram e no sentido que se lhes deram. Nem inventar palavras me é permitido. A não ser que eu fosse um Guimarães Rosa, a quem o neologismo foi chamado de arte.

E não adianta comprar dicionários. Eles não fazem de você um poeta nem um escritor. No máximo, ajudam a escrever corretamente.

Nasci humano. Tenho de me contentar com as humanas limitações.

Se me fosse dado escolher, nasceria pássaro. De grandes asas e altos voos.

Pairaria sobre as cidades e os campos, conheceria todos os continentes, voaria sobre mares e cordilheiras. E nunca precisaria escrever nada.

As árvores também não escrevem. Mas eu não gostaria de ser árvore. Nascer, viver e morrer com raízes fincadas no mesmo lugar. Eu só nasceria e morreria, jamais viveria.

Nem bicho, nem peixe, nem flor, nem borboleta. Queria ser pássaro. Um condor. Um falcão.

Meu instinto seria voar. Jamais teria raízes nem âncoras. Só asas e o espaço para voar livre. Como destino, a liberdade.

No entanto, pequena humana que sou, sem asas nem raízes reais, eu as tenho imaginárias. As asas eu mesma as cultivo. As raízes – e âncoras – são impostas pela vida. E por mais que me sinta livre e tente voar, tenho de voltar ao mesmo lugar. E escrever é o caminho dessa vida.

Para não enlouquecer, para voar sobre o mundo, escrevo.

Como destino, a fuga pelas letras.