No azul do céu

É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol, / Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz / E corre um silêncio pela erva fora. (Fernando Pessoa)

 

Céu muito azul, fim de outono, anúncios de inverno. Folhas ainda verdes, chuvas temporãs ajudando a natureza.

Nada muda para a humana percepção. Em um de repente sei que o céu se cobrirá de cinza, sei que ventos violentos surgirão não se sabe de onde vindos, as folhas não estarão mais nas árvores, mas cobrirão o chão.

Mas não poderei ver os detalhes dessas mudanças, a cada segundo se preparando para nos surpreender.

Vemos o antes e o depois. Não temos capacidade para escrutinar momento a momento o que se passa em torno de nós.

Um dia, sem que nos déssemos conta, ficamos adultos, responsáveis por nós mesmos, nossa felicidade, nosso bem-estar e nosso sustento. E, ainda mais de repente, nos tornamos responsáveis por tudo de nossos filhos, tão pequenos, tão dependentes.

E quando olhamos novamente, eles já se tornaram adultos, tomaram as rédeas da própria vida e se foram. E nos tornamos responsáveis então pelos nossos pais, que eram tão fortes, tão determinados, tão independentes. Apenas a nossos olhos.

E os ventos se vão, a chuva cessa e novas folhas nascerão quando vier a primavera.

Quem sabe se ainda estará aqui para ver as flores que virão? E quem conosco ainda estará nessa nova estação?

Mas tenho uma certeza nessa vida: a de que o céu será – quase sempre – lindamente azul.

O burro filósofo

Hoje trago um texto de Humberto de Campos, que considero interessante…

 

O burro filósofo

                               Olhando a campina imensa, que se estendia diante dos seus olhos resignados, trocavam ideias, naquela tarde, entre as cercas daquele pequeno quintal da fazendo, um cavalo e um burro.

                               – Não sei porque – dizia este – mas eu gosto desta prisão. Aqui eu tenho tudo: palha, repouso, água e, uma vez ou outra, o pequeno esforço de uma viagem, que nem ao menos me fatiga.

                               – Pois eu – opinou o cavalo, mastigando um punhado de capim, que lhe dançava na queixada – eu não penso assim, dessa maneira. Para mim, o essencial é essa ventura de correr pelas campinas, medindo, com as minhas patas, a extensão das várzeas enormes…

                               – São opiniões… replicou humildemente o burro

                               – E cada um deve respeitar as opiniões alheias… tornou o cavalo.

                               Momentos depois, entrou no curral um homem calçando botas de montaria. Trazia na mão um rebenque. Chegou, meteu um cabresto na cabeça do cavalo, puxou-o para fora, selou-o, montou-o e partiu.

                               À tarde, continuava o burro a comer a sua palha, quando o cavalo entrou no curral. Vinha suado, cansado, humilhado.

                               – Foste passear? – perguntou-lhe o asno.

                               – Fui. Dei umas voltazinhas por aí.

                               – E que tal?

                               – Excelente. A campina estava tão bonita…

                               – Foste até a lagoa?

                               – Não; não pude.

                               – Por que?

                               – Ora, por que? Porque o homem que ia montado, puxava a todo o momento, as rédeas, dando-me direção inteiramente contrária àquela que eu pretendia.

                               O burro soltou um relinchozinho perverso e disse:

                               – Aí está em que um cavalo se parece com um homem. A liberdade é seu sonho; e, no entanto, quando se diz livre, é exatamente quando mais sofre a tirania do cabresto, do rebenque e da espora!

                               E baixou a cabeça filosoficamente sobre o monte de palha.

(Humberto de Campos)

Todas que sou

 

Tantas eu sou quantas mais eu fui

Porque indiferente ser um, não ser um ser nenhum

Se viver é se superar a cada momento, lanhar a casca para seguir adiante

Não posso me levar inteira para onde eu for

Alguns lugares são tão pequenos para todas essas

E jamais poderei deixar alguma para trás, abandonada

Ou corro o risco de nunca mais a encontrar

Temos de nos unir e nos adaptar ao nosso canto

E assim vivendo entre mim e mim mesma

Indecisa entre ficar inteira ou ir partida, despedaçada,

Prefiro deixar-me ficar junto de mim aqui

Espalho eu mesma minhas eus pelo meu mundo

E depois as recolho e as guardo com amor

 

Em que língua os homens se entendem?

 

A linguagem é o que distingue o homem do animal.

Nosso idioma sofreu um acordo.

Na verdade é mais uma reforma ortográfica, visando unificar a linguagem da comunidade lusófona mundial — Brasil, Portugal, Moçambique, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe.

Tira acento, suprime o trema, junta palavras e por aí afora.

O mundo inteiro estuda inglês – qualquer criança, incapaz de escrever um simples ditado em português ou ler um livrinho básico, já estuda inglês. E esse fenômeno não é particularmente brasileiro, onde péssimas escolinhas de inglês pipocam em toda esquina, onde professoras que mal sabem português e nada sabem de inglês dão aula sem maestria.

Escolas de línguas estrangeiras se reproduzem como coelhos.

E toma espanhol, e estuda mandarim… (???!!!)

Não reprovo o domínio de uma ou mais línguas estrangeiras, não critico quem vai ao país de origem da outra língua para aperfeiçoar e conquistar o pleno domínio. Mas pergunto: nessas escolinhas se aprende alguma coisa? Sei que não, já fiz algumas.

Os animais do mundo se entendem? Será que um cachorro brasileiro entende o que um cachorro russo late? Ou um gato belga entende o que um gato chinês mia? Eles não estudam línguas, mas os sons que emite, em qualquer parte do mundo, soam exatamente iguais para quem ouve.

Seria uma linguagem animal universal?

Bem que já se tentou uma língua universal – o esperanto, que, ao que tudo indica, não deu certo. Não conseguiram uma linguagem universal. Talvez porque soe muito esquisito.

Poderíamos encontrar uma nova linguagem, e tentar torná-la universal, dar qualquer nome, pode-se inventar, já que a linguagem será inventada também. Talvez nem exista na forma escrita, seja como língua indígena, só falada… e então liberaríamos nossas crianças dessas escolinhas de inglês.

E mais: é preciso que todo mundo fale inglês?

Então para que a reforma ortográfica de outros idiomas? Não seria melhor obrigar a comunicação em inglês?

Será que se todas as nações, todos os povos falassem uma mesma língua, inglês, por exemplo, já que gostam tanto dessa língua (tão pobre, de sonoridade tão feia), os homens se entenderiam melhor?

Será que na ONU, onde todos falam inglês e somente em inglês, eles se entendem?

E os países que mesmo falando a mesma língua entram em guerra, por que?

Ou ainda que falem a mesma língua, por não terem amor, não se entendem?

Um dia ainda descobrirão a fórmula do entendimento universal…

 

 

Deixem-me envelhecer

Trago hoje esse texto que recebi durante a semana. Acho que vale a pena ser lido, e, até mesmo, guardado para ser relido.

 

                                       DEIXEM-ME  ENVELHECER

 

 

Deixem-me envelhecer sem compromissos e cobranças

Sem a obrigação de parecer jovem e ser bonita para alguém

Quero ao meu lado quem me entenda e me ame como eu sou

Um amor para dividirmos tropeços desta nossa última jornada

Quero envelhecer com dignidade, com sabedoria e esperança

Amar minha vida, agradecer pelos dias que ainda me restam

Eu não quero perder meu tempo precioso com aventuras

Paixões perniciosas que nada acrescentam e nada valem.

 

Deixem-me envelhecer com sanidade e discernimento

Com a certeza que cumpri meus deveres e minha missão

Quero aproveitar essa paz merecida para descansar e refletir

Ter amigos para compartilharmos experiências, conhecimentos

Quero envelhecer sem temer as rugas e meus cabelos brancos

Sem frustrações, terminar a etapa final desta minha existência

Não quero me deixar levar por aparências e vaidades bobas

Nem me envolver com relações que vão me fazer infeliz.

 

Deixem-me envelhecer, aceitar a velhice com suas mazelas

Ter a certeza que minha luta não foi em vão: teve um sentido

Quero envelhecer sem temer a morte e ter medo da despedida

Acreditar que a velhice é o retorno de uma viagem, não é o fim

Não quero ser um exemplo, quero dar um sentido ao meu viver

Ter serenidade, um sono tranquilo e andar de cabeça erguida

Fazer somente o que eu gosto, com a sensação de liberdade

Quero saber envelhecer, ser uma velha consciente e feliz.

 

(Concita Weber, in O Topo da Montanha,

fevereiro de 2016, Berlim, Alemanha)

Poesia para o sábado de chuva – Duas Almas

Sábado, carnaval, MUITA chuva e visitas… para não falhar no propósito de postar 100 dias seguidos, mas, também, sem tempo para escrever, preencho o post com uma de minhas poesias favoritas: Duas Almas… que me encanta desde sempre…

Duas Almas

(Alceu Wamozy)

 

Ó tu que vens de longe, ó tu, que vens cansada,

Entra, e, sob esse teto encontrarás carinho:

Eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho,

Vives sozinha sempre, e nunca foste amada…

 

A neve anda a branquear, lividamente, a estrada

E a minha alcova tem a tepidez de um ninho,

Entra, ao menos até que as curvas do caminho

Se banhem no esplendor nascente da alvorada.

 

E amanhã, quando a luz do sol dourar, radiosa,

Essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua,

Podes partir de novo, ó nômade formosa!

 

Já não serei tão só, nem irás tão sozinha.

Há de ficar comigo uma saudade tua…

Hás de levar contigo uma saudade minha…